Alma em Verso
Poesia

4 Pajonal

Sérgio Sodré Pereira

II Sinos do Verso GaúchoPublicado em

Foram vinte dias de chuva de encharcar as garroneiras; A silhueta estancieira dia após dias encruada mal se via as invernadas... mal se via o fio dos dias... tudo era nostalgia... ...toda lida era apertada.

Por debaixo do capão o rio surgiu imponente levando tudo a frente foi cobrindo o pastiçal. Num jeitão de General transpôs todas trincheiras, estendeu suas fronteiras e engoliu o pajonal.

Da janela... da janela eu vi a cena de bárbara submissão: a aguada da criação sucumbir a uma crescente; depois que se fez ausente senti a estranha mágoa: água afogada na água como se fosse um da gente.

De súbito, esqueci do mate; ao me topar com a verdade daquela calamidade que jamais vira igual e percebi, afinal, entre o cinza do campo que a alma de alguns tantos é igual a um pajonal:

Existem almas serenas que dão sempre água boa têm uma paz que encordoa indiferente à estação prateiam na escuridão e remoçam outras vidas -de maneira incontida são boas de coração.

Há também as almas turvas que não se conhece o fundo andam a vagar no mundo buscando razões de ser não têm sonhos de estender seus limites naturais (ou sendo rasas demais ninguém chega pra beber).

É preciso muito jeito com a alma desconhecida pode parecer florida -nada aparenta de mal- pouco demonstra afinal com seus ares de descanso (pode ser só um remanso, também pode, tremendal)

Volto então ao “afogado” que morreu na própria calma; feito ele, tantas almas perecem no mundo aberto. Por terem medo do incerto imaginam ter guarida mas um dia o rio da vida leva o que estava por perto.

E as vezes este rio passa sereno e com jeito estende aos poucos seu leito nos rumos que assim galgou e alma que ali ficou não se engana com miragens -entende as novas paisagens que o rio da vida formou.

Talvez um dia - Deus sabe! o rio vem em correnteza com destruição e tristeza deixando tudo às avessas não há nada que o impessa e a alma que era tranqüila frente ao destino que afunila nem sabe se recomeça.

...hoje o rio voltou à margem se estenderam os rebanhos

no começo foi estranho tudo que deixou a enchente, mas o tempo anda pra frente e todo ciclo seguiu, até o banhado ressurgiu, porém, com alma diferente.