Alma em Verso
Poesia

8. Lá no Caminho Bonito – Joseti Gomes

Joseti Gomes

I Estância da Poesia Crioula - VirtualPublicado em

Grades não aprisionam O soco da mão fechada Que jura amor desse jeito! No sangue quente da briga, Corta, pisa… depois suplica... Beija a face e fecha os olhos Pra dormir no mesmo leito.

Assim começa o poema De uma certa flor do campo Que ornou um vaso na sala. Foi musa de muitas linhas, Também reinou na cozinha E perfumou os lençóis De um poeta que se cala.

Cala a voz e pesa a mão Quebrando o vaso da flor, Que rasga verso e vestido. Levanta a mão escarlate Que fere, marca e bate Dentro do rancho barreado Lá no "Caminho Bonito".

Maria, Tereza, Leontina… O nome da rapariga, É coisa que ninguém lembra. O que fica nos registros São somente os apelidos... "Uma tal de China Louca Que abandonou a fazenda".

"A guria enlouqueceu E partiu de madrugada Em noite de temporal." "China louca! Sem piedade! Por conta da pouca idade, Não soube honrar o marido. Coitado do Juvenal!"

"Fugiu, por certo, com outro!" "Foi vender alguns carinhos Em troca de poucos pilas!" "Se acaso seguir com sorte Vai se encontrar co'a morte Num brete sem testemunhas, Num beco de alguma vila!"

Uma porteira se abre No silêncio, das paredes, Que dormem c'o Juvenal. Cicatrizes na sacola, E a musa se vai embora Levando a vida enrolada Num anúncio de jornal...

Estes causos, tão comuns, São contados nos galpões, Depois das lides do dia. O campo bebe do orvalho, Enquanto cinzas, do borralho, Cobrem verdades e marcas Que não cabem na poesia.

Muita sujeira se varre Pra debaixo do tapete Neste cenário campeiro... Qual o sentido de um tema Que não cabe num poema Por ser urbano demais? Talvez por ser verdadeiro...

Respeito um verso de campo Com paisagens retratadas Nestas imagens terrunhas. Respeito se o verso é xucro, E descreve esse gaúcho, Que tem amor pelo pago Com terra embaixo das unhas.

Respeito também as dores De quem não foi retratada Por não ter fama de herói. Por não caber na paisagem… Foi preciso ter coragem Pra tingir a folha branca, Co'a pena que mais me dói!

Era Maria o seu nome, mas isso já não importa… Teve seu corpo ferido... Teve seu rosto marcado… Teve o vestido lavado E nunca mais retornou Lá no "Caminho Bonito"...

A musa é sempre descrita Dentro de rica moldura, Com a face maquiada. Do verso feito pra ela, Voam tranças na janela Enquanto queima na carne A rosa desabrochada.

Aqui eu encerro o verso Que não respeita o padrão Da folha, em cima da mesa. Seja no campo ou cidade, Se o amor é de verdade Ele não pode doer, Disso eu tenho certeza!

A vida nova respira No ventre de uma barriga que lava pratos na pia… O Poeta de bombachas Ergue o copo de cachaça Para brindar seu poema: Primeiro lugar "POESIA".