Alma em Verso
Poesia

A cruz sem nome

Gilberto Trindade dos Anjos

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Será que sabem os que me vêem aqui corpo ainda teso e braços bem abertos, junto de alguém que nem sei ao certo qual foi o nome que ganhou pra si, que ouço mensagens vindas até mim em clarinadas no soprar dos ventos, para continuar pelo tempo adentro guardando alguém que eu nem conheci.

Será que sabem os que cruzam aqui sem uma reza e tampouco um sinal, qual foi a causa do estranho final e quais razões de aqui eu me postar, braços abertos no eterno esperar que a história faça a sua real escrita, e traga alento pra uma alma aflita que nunca teve voz para gritar.

Aqui cheguei logo depois do taura não vi sua tez nem tampouco o rosto, não vi suas vestes de gaúcho tosco que entrou na guerra sem saber pelear, e igual a um tigre obrigado a lutar largou a paz de seu leal galpão, e erguendo a lança com feroz paixão gastou suas garras por um ideal.

Fui falquejada por mãos laboriosas desacostumadas ao frio vil das armas, que um desdito dia foram arrebanhadas para lutar sem perguntar porque, e hoje rogando para alguém me ver cumpro minha sina de louvar um taura, que doou o corpo e empenhou a alma no sacrossanto cumprimento do dever.

Varei os anos com a estranha missão de guardar alguém que não conheci, e assim como eu foi plantado aqui na mesma terra que o pariu pra vida, pois tombou um dia de cabeça erguida numa batalha que nem era sua, e só o que ganhou foi uma campa nua e os meus braços pra buscar guarida.

Fincada aqui vi o avançar do tempo e quem era mau virar bom e justo, vi sobrar medalhas e surgirem bustos pra quem subiu e se adonou do trono, vi usurpadores se julgaram donos da história que recém se delineava, excluindo de suas estórias mal contadas os que no chão deixaram o seu entono.

Será que sabe este novo homem hoje sem tempo de saudar uma cruz, que a bendita terra que a tantos seduz já teve males e revoluções, e foram estes que hoje são monchões em loucos atos de quem tem amor, que escorraçaram a dor da própria dor para forjar nossos atuais brasões.

Será que sabem os que cruzam aqui que nesse pampa onde a paz vigora, há tantas cruzes pelo campo afora guardando a história que não foi contada, dos que ficaram com a alma plantada nas covas rasas das revoluções, sem ter direito a evocar os seus quinhões nos lauréis da sua pátria libertada.

Braços abertos aqui eu vou esperar que os sabedores da historia verdadeira, libertos das doutrinas sorrateiras que cabresteiam o pensar do novo homem, se dispam da soberba que os consome apeiando aqui para nos reverenciar, e com respeito aos meus pés venham ajoelhar para saudar uma velha cruz sem nome.