Alma em Verso
Poesia

A Milagrosa

Antônio Augusto Ferreira

Publicado em

O quadro vem surgindo na memória, embora o tenha visto há tanto tempo, com estes olhos tintos de ilusão. Era uma santa, em seu altar de glória, era Nossa Senhora dos Aflitos, a Milagrosa, como foi provado por fatos constatados no passado - sua força vinha d'Ele, do Infinito.

Eu lembro a velha de piedosas rezas, de joelhos frente à imagem, na oração. No castiçal a luz do coto de uma vela agrandava a sua sombra de aflição.

A rezadeira sabe, causa forte faz necessária penitência funda, proporcional ao pleito e gravidade. Por isso hoje esteve muito tensa, pôs o filho ao seu lado, genuflexo, molhou a mão na pia de água benta, fez-lhe uma cruz na testa, dando a bênção.

O dia amanheceu com novidade: dois pistoleiros muito conhecidos vistos chegando à casa principal.

Era um alerta ao moço que fugisse discreto e sorrateiro do lugar. Ele andava de amores escondidos com uma moça dos mandões da vila, ela botou barriga e a mãe viu. Determinou ao filho que encilhasse e entregou-lhe o revólver de seu pai.

- Vai, meu filho, senão esses capangas acham teu rasto, são profissionais que não têm alma e ganham por cabeça. Te mexe já, que resta pouco tempo, cruza a picada antes que anoiteça, eu sei que ali é que haverá a tocaia e ainda não deu tempo de aprontar.

Dos alugados, um prefere a faca que não faz barulho e cala fundo. As rezas no ar mobilizando a santa (há um litígio da força contra a fé). Por sorte a bala se cumpriu primeiro, o pingo cruza em cima do morrente vai da picada ao fim do mundo até.

O corpo do capanga fedeu dias, esperando polícia para o laudo. O irmão, que eram dois os pistoleiros, batia forte o rasto e não firmava, e o fugitivo sempre mais distante: - Fazem três dias que passou aqui.

Era filho de sorro, despistava, no bolicho indagava da fronteira: - Quantos dias de viagem? Bueno, grácias.

Montava no cavalo e galopava no sentido indicado mas de noite contornava por trás o tal bolicho, pegava outro caminho e nunca mais.

Dias depois, à casa do patrão retornou em sigilo o contratado, as notícias não eram das melhores. Quis saber do irmão. - Foi sepultado. (Ficou em choque, ainda não sabia). - Me arrume um canto, com fogão e cama, vou ficar por uns tempos arranchado. Não apareça lá, fique de fora. Ele volta que eu sei, ele tem mãe. E agora nem precisa pagamento.

A velha vive presa ao oratório, renova a vela antes que ela acabe e pede à Milagrosa, em responsório: Minha Santa, não deixe que ele volte! Senhora dos Aflitos: não permita que ele volte! Minha Mãe Milagrosa: não permita que volte o filho amado.

As mulheres amigas do povoado vêm reforçar a reza, em causo brabo. Ninguém comenta o fato já ocorrido, mas nos dias que seguem chega um pão, uma galinha limpa: a velha é pobre. Um dia falarão do que um guri, um frangote recém botando pua, fez com dois matadores, dois capangas que empreitavam a morte por uns cobres.

O alugado patrulhava à noite, dormindo só de dia e mal comendo. O inverno, as garoas, mais a idade, ah! e a cachaça, e o poder da Santa, cada um seu tanto, e a pneumonia comeram os seus bofes.

Tempos depois voltou o moço altivo, pêlos de barba por fazer nos queixos. Antes passou em casa, pela mãe, depois seguiu no rumo à do patrão, pediu licença para ver a moça, porque ele tinha tudo a ver com isso. - Sustentá-la? Recurso? Arregaçou as mangas e mostrou-lhe uns braços fortes como cambará.

A Santa Milagrosa, no seu nicho, vê a velha ajoelhada ao fim da tarde, seja com chuva, sol ou invernia. Ela já não ajoelha muito tempo, gastou as juntas velhas no oratório; cumpre o rosário, pois promessa paga mantém crédito que, talvez, um dia...

Seus olhos desbotados inda choram, só uma mãe sabe o quanto deve à outra que lhe salvou o filho. Daí o tratamento carinhoso: Milagrosa.