A Tradição
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Venho dos fundos dos séculos, Da eternidade, talvez. Desde que o mundo se fez No eclipse universal, Eu já nasci pura e viva No fundo do coração Do ser que na evolução, Era homem animal.
Na cavernosa existência Do homem, quando surgia, O meu nome já existia Em santa veneração. Pois mesmo recém formada A massa da inteligência, Guardava - se a reverência De uma lei - a Tradição.
Eu sou, pois, eternidade Que em cada povo persiste. E quem diz que não existe Em cada canto da terra, A transmissão das heranças No culto de amor e glória Aos acervos da história, Que na tradição se encerra.
Não há um povo no mundo Que não tenha tradição. E, mesmo na evolução, Século a século, palma a palma, Os povos guardam e veneram Com respeito este meu vulto, Pois um povo sem meu culto Será um povo sem alma.
Mas às vezes no Rio Grande, Que um dia elevou-ser altivo, Num grito bravo, nativo, Pra me defender, enfim, Como um açoite, um agravo Ao destino desta gente, O ignorante, o descrente Persiste em zombar de mim.
Onde estão os grandes homens Que diziam que me amavam, Que nos púlpitos pregavam O amor ao meu conceito? Onde estão os defensores Da minha lei sacrossanta? Ainda é “grosso” o que levanta A sua voz para o meu preito.
Somente alguns, ainda bravos Persistem em me cultuar, Mas já não podem alcançar A ressonância total. Estão todos embebidos Na fantasia, do canto, E meu culto que era santo, Hoje é um doido festival.
Mocidade evolutiva, Que descamba pro pecado, Meu destino está marcado E um dia compreenderão: Mesmo que virem os cérebros Pra destruir a memória, Na eternidade da história Ficará a Tradição.