A Vida e mais que uma Aposta
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Era um ratão sobre o beiço Chamuscando em fumo e canha, Na vida... baldas e manhas Como lebre de ladeira, Batismo, de chuva e poeira, Neto do negro Domingo, Chamavam-no Gomercindo, Sem sobrenome ou bandeira.
Beirava os quarenta e quatro Na fachada da existência. Somou na vida, experiências, Que traduzia em seus gestos, Era um potro no cabresto, Muito bem arrucinado, Bom de doma, e de alambrado, Servidor, franco e honesto.
Um chapéu de abas largas Que lhe sombreava o garrão. “Jeito calmo, bonachão” e como pica-pau degolado, um lenço bem colorado como sangria de aurora, mordendo os dentes da espora os flecos de um couro pardo.
Este era seu modo de ser Pra lides do dia a dia, Traduzidos em valentia Nas horas de precisão, Nunca negou-se à um irmão Mesmo nas horas mais feias, E por gostar de maneias, Veio a fama de brigão.
Era um morador transitório Da fazenda Azambuja, E perto da dita cuja a Noca tinha uma venda. A Noca era uma prenda Com fama de “ muito dada” Lindona, flor de rosada No seu vestido de renda.
Foi lá... ainda lembro bem, Que uma tarde de domingo, De lobuno, o Gomercindo Boleou a perna no más, Tapeou o chapéu pra trás Entrou arrastando a espora “tem peleia sem demora” falou o João Capataz.
Já os olhares se cruzaram Como quem sente, e acredita, Um pardo pele de chita, E um Paraguaio salino, Com jeito de cão ladino Foram trocando de lado, Ante um olhar debochado Que trouxera de menino.
Acontece que há bem pouco Nas carreiras de Candoca, Como fugidos da toca O Paraguaio e o mestiço. Formaram um reboliço E tarde ficou rançosa, Numa aposta duvidosa De uma penca de petiço.
Era daí a pendenga Que seria resolvida, Por que nada nesta vida Deve ficar pra depois. E pensando assim os dois Iam resolver o assunto, Mas covardes, saltam juntos Como uma junta de boi.
Na costaneira de um banco Sentou pra tomar um trago, Seu jeitão de debochado Põe mais lenha na fogueira, E o tal chamado “herrera”, Se alvorota igual tormenta E uma nuvem fumacenta Misturou sangue com poeira.
Os comparsas se atiçaram Como cuscada faminta. Pois com homem não se brinca. Macho merece respeito... Mesmo baleado no peito Saiu peleando da sala, Caiu envolto no pala Num corredor mais estreito.
“Foi Lastimada de morte” gritou o macho da Noca... com o alarido, provoca mais vingança que razão. E aquele olhar fanfarrão, De centauro, de guerreiro, Volta a tropear os potreiros Das rodas de chimarrão.
Este o pampa pariu macho Na palavra da parteira... Até a própria boieira Foi perdendo o resplendor, A noite encheu-se de dor, E os grilos todos calaram, Só vaga-lumes, rondaram, Esta cruz de corredor.