Alma em Verso
Poesia

A volta do Zé da Pinha

Cristiano Ferreira Pereira

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Não!... Não ficou tapera a fazenda antiga!

Arrendou os campos, encilhou o flete - poncho emalado, manoteou nos peçuelos – ganhou a estrada rumo à ilusão urbanizada, sina brasina dos campeiros deixados à própria sorte.

Sim... Antes de montar, recorreu a casa, o galpão, a velha e buena mangueira de pedras, parou à sombra da figueira - de chimarrear ao entardecer - pitando o último “baio” para dar rédeas à saudade!

Fitou... Ainda pitando, o palanque de corunilha, que, ante o tempo, não cimbrou, como... querendo ter a mesma fibra.

E, quando... Já na partida, o berro do touro, por trás da coxilha, o relincho do potro, repechando no cerrito, ecoaram em seus ouvidos num sonoro: - “Adeus, parceiro!”. seus olhos deram vazão às gotas de um orvalho de sentimentos, naquela manhã de sol, sobre o alvorecer tordilho da geada!...

Não! Não deixou tapera a antiga fazenda, um outro chegou “às casas”!

Na cidade... Somente de changas - mais os cobres do arrendamento - sustentava-se, a esposa. e ao colégio dos piás. Passaram-se floridas primaveras após sebrunos invernos e, a cada dia vencido, contava mais uma rês no rodeio das brasinas!

Os dias foram passando e, as noites, foram pequenas... até que o relincho do flete tordilho-negro (que lhe agrada o pêlo), como “invite” de “Se bâmo”, sinalizou que o campeiro “virava a cabeça pro pago!...”.

Então... como não há mal que sempre dure nem dia que não chegue... manoteou, novamente, nos peçuelos - poncho emalado - ganhou a estrada, a troperear suas lembranças entre a poeira dos anos.

Ao tranquito, foi vencendo distâncias, costeando cercas - arames... tramas... moirões... cordas, trastes e cavaletes- guitarra guapa dos ventos!...

Sempre... Sentia que os antigos - aqueles que portavam copos de guampas com bocais de prata, da voz amiga, conselho bueno (os quais o Patrão Velho reculutou prá Estância Grande) - amadrinhavam-lhe os passos.

Chegando... Ainda longito, avista a roda da carreta que - escorada à parede secular - orna o pitoresco quadro pampeano. O coração corcoveia!(saudade da carreta)... boi Neblina, boi Sereno, parceiros de tempo e lida...

De relancina, nota que tombaram os cinamomos que haviam junto à porteira, tombou, também, a figueira, mas, lá está ele – o palanque – razão de suportar a distância - parceiros de resistência, a cabrestear o destino!

Não!... Nunca esteve tapera a fazenda antiga! Até porque... a alma desse campeiro sempre se fez presente, no galpão, na sombra da figueira, no lombo xucro dos potros...

O taura... seu jeito humilde, calmo qual água de cacimba, com o coração - grande invernada - emocionado, transpôs a cancela e, os barreiros, tajãs, seriemas, os alvissareiros quero-queros, impeçaram o alvoroço, repercutindo a notícia às coxilhas, às águas puras da sanga, como dizendo: - “Indiada, o Zé da Pinha... voltou”!

A VOLTA DO ZÉ DA PINHA

Crédito da fonte: Crstiano Ferreira Pereira