Alma em Verso
Poesia

Os Cabelos Brancos do Meu Pai – Adão Quevedo

Adão Quevedo

I Querência da Poesia Xucra - VirtualPublicado em

Estes teus cabelos brancos estas rugas no teu rosto, o tempo deve ter posto para irrigar o teu pranto... Meu pai, eu te amo tanto, pois herdei estes teus traços, estes teus olhos de aço disfarçando a ternura desta tua alma tão pura na candura de um abraço.

Perdoa a lágrima rasa que escorre, feito sereno, pelo meu rosto moreno... Pois cada gota que vaza é uma emoção que extravasa, pois me pareço contigo! Sou negra, eu te bendigo... Meu pai, foram teus conselhos Que me serviram de espelho Pelos palcos onde eu sigo...

Lembro a cada instante minha mão dentro da tua na varanda, olhando a lua... contando estrelas distantes, como se fossem diamantes no poncho azul do infinito e o luar mais bonito vinha derramando prata pros grilos, em serenata, entoarem o seu rito.

Foste tu quem me ensinaste a ler o poema da vida... a andar de cabeça erguida, pois nunca comungaste pelo chão onde pisaste o mesmo rastro do errante... Respeitar o semelhante, nunca agredir com mentira, pois a pedra que se atira pode voltar logo adiante.

Palanque feito de angico, esteio rijo da casa... marca de ferro em brasa, pois suportaste solito tudo que veio escrito no teu destino de poeta, escrevendo em linha reta o que a vida trouxe torto, sem nunca negar conforto nem desviar-se da meta.

Ah... Este teu sorriso aberto, feito o sol clareando o dia... Recordo, com nostalgia, teu carinho pelos netos, pois me pareço contigo! esta mão cheia de afetos semeadora de harmonia, tens o dom da poesia e a tua voz embargada tem timbre de madrugada com claves de melodia.

Sou teu sangue, tua raça, ferida de preconceito... mutilada em meus direitos que a vida sangra e disfarça, mas nunca entrego de graça a luta pela igualdade... Além de toda maldade daquele que discrimina... Sou dona da minha sina... Sou negra, sou liberdade!