Longe da Querência
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Puxa que vida maleva Me reponta a existência Viver longe da querência, É vida sem solução, Hoje apenas, acaricío o chimarrão Dando beijos de esperanças Afugentando as lembranças Que me embretam o coração.
Eu, quando em tempo de piá Piazito xucro e mui guapo, Gotas de sangue farrapo Foi minha primeira herança. Depois então peão de estância Quando fui ficando moço Ganhei um pingo bueno e colosso Para os fandangos e festanças.
Tudo o que no verso eu digo Tive na vida campeira, Poncho, chapéu, boleadeiras, Tirador couro de pardo, Chilenas com cabrestilhos bem largos Charqueadeira prá o churrasco, Água da fonte sem asco E também o mate amargo.
Hoje só existe os recuerdos Daquela vida passada, Oigalê! Vida folgada Bem rude, e xucra à vontade Onde aqui na cidade Se vive na confusão, Com apitos de fábricas Buzinas de autos e caminhões Estou preso sem liberdade.
Cidade não é pra nós Criado em lidas campeiras, Trabalhando nas mangueiras Acordando as madrugadas, Lidando nas invernadas E sentindo o minuano Vento sul nos sussurrando Lendas de muitas tropeadas.
Mas a vida é assim mesmo O destino que é gaudério, Uns são cheios de mistérios Com alegria ou tristeza, Eu tive a grande fraqueza Deixei meu pago e minha gente E me bandiei de repente Pra outra querência sem beleza.
Pedi pro patrão do Céu Que me conceda o perdão, Por ter deixado o meu chão Solito e abandonado, E vim me dar aos costados Na cidade das ilusões, Que só deixa corações De campeiros palanqueados.
Sonhei que fui na querência E senti o aroma das pitangas, Que tomei água na minha sanga E que encilhei o meu pingo, Que vi o meu cusco latindo Pelos campos campereando, Acordei meio chorando De um sonho que foi tão lindo.
Tornei a ficar tristonho E me aumentou a saudade, E nesta hora senti vontade, De acabar com esta ausência, Pois, se um dia eu puder Pra minha terra voltar, Eu quero chegar e beijar O próprio chão da minha querência.
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Poema da coletânea de Poesia Gaúcha: “Uma Tropilha
de Versos na Querência”