Alma em Verso
Poesia

Talvez Eu Seja Campeiro

Adriano Silva Alves

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Talvez eu seja campeiro, por andar bem a cavalo Por ter as marcas das mãos feitas nas formas dos pealos Talvez eu seja campeiro, por conhecer a distância Dos limites que me entregam os campos da minha estância Talvez eu seja campeiro, ou seja igual outros tantos Talvez eu seja campeiro porque andei noutros campos

Ouvi nos ditos do tempo mais velho que pé de vasa Que pra ser homem campeiro ‘‘hay que salir de su casa’’ Ouvindo o som dos galpões palavra de outros campeiros Das cruzadas de outras sangas de outros potros caborteiros

Lembrar da voz depois antigos e um palavrear de mangueira Onde se aperta não monta se monta não se esporeia Cuidar o largo horizonte onde a lonjura se solta Alçar a perna confiante num pingo que busca a volta Saber cuidar os atalhos dos matos numa picada E sempre sair pra frente no susto duma rodada

Cuidar na forma da armada a sombra o seio do laço E ao reunir no rodeio o berro de um touro alçado Saber o sol que levanta compondo a idade do dia E qual berço de mecega a vaca escondeu a cria Benzer em cruz a tormenta, fechar as portas do rancho Saber da ovelha bichada só pelo voo do carancho

Ter a paciência mas mãos pra os buçais das madrugadas O quanto aperta um bocal a lua duma enfrenada Olhar o lado do vento a cobra que esconde o rastro E onde posar com a tropa só pelo visto do pasto

Porteira, porteira não fica aberta Aparte não volta atrás Obediência ao patrão e ao mandos do capataz Chapéu na mão e o saludo que espera “um passe pra diante” Ofertar poso e potreiro pra um gaucho que vem de longe

Cuidar cerca ter capricho, falar com muito respeito Por saber que numa estância cada peão tem seu jeito Ser sempre bueno e disposto, e não se assim lhe convém Tempo de frio e de chuva pra o campo se vai também

Coisas pequenas pra tantos mas tão grandes nessa vida Desde onde dorme a tropilha pra hora da recolhida Até a volta do mate num madrugar de galpão Que a cuia na mão canhota leva junto o coração

E eu eu talvez seja campeiro por tudo isso que falo Não por andar bem pilchado ou andar bem a cavalo Talvez eu seja campeiro por conhecer as distâncias E outros tantos campos largos além dos da minha estância

Por conhecer dialetos e escutar tanta gente Desde um posteiro de vila ao senhor de um continente Por ouvir o analfabeto e um doutor engravatado E respeitar os antigos mais velhos que meu passado Que povoaram,os galpões de um tempo que ganhou asas Talvez, talvez eu seja campeiro porque saí da minha casa

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