Tropeando a Saudade
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Em um rancho na cidade grande Um velho xiru mateia. Quem o vê talvez não creia Que este velho bonachão Cabelos brancos risão Golpeando um trago de canha, Já foi moço de campanha Andou em campo e galpão.
Ouviu o berro do gado E o cantar da passarada, Levantou de madrugada Bebeu leite na mangueira. Com carro de curticeira Foi guri junto a seus pais, Forjou os seus ideais Nos moldes da antiguidade, Onde respeito e amizade Não se esqueciam jamais.
Viu carreiras em cancha reta Jogo de osso, peleia, E em noite de lua cheia Caçadas e pescarias, E as trovas de aporfia Com versos cheirando a chão, Gaita ponto e violão Nas rodas de cantoria.
A água pura de vertente E quantos banhos de sanga, O gosto bom da pitanga Do araçá ou guamirim, E do perfume de jasmim Também do manjericão, De uma mãe dando lição Com varas de alecrim.
Mas eis que um dia o progresso Lhe cabresteou finalmente. Deixou para trás sua gente E mudou-se de querência, Mas trouxe junto a experiência Da escola grande da vida, E nesta estrada comprida Moldou sua existência.
Hoje junto à sua patroa Restam causos, brincadeiras. Se a vida não tem porteiras P'ra quem luta bravamente, Entra para dentro da gente Abre o baú do passado, E nos fala emocionado O que restou do presente.
Restou-lhe campos floridos Na estrada do pensamento, E as idéias de Bento De que houve igualdade. Um coração sem maldade De um peão experiente, Que plantou sua semente Do interior na cidade.
Às vezes ele pára e pensa Como tudo foi mudando E progresso transformando O Santa Fé em concreto. Até o próprio dialeto Mudou da noite pro dia, Os mais velhos é tio e tia Assim em forma de afeto.
Por onde passavam tropas Passa hoje um caminhão. A velha luz do lampião Deu luz a fluorescente, Nunca mais viu a vertente Por certo contaminada, Ou talvez canalizada Numa mansão imponente.
O que será que ele pensa Ao ver tanto modernismo? Onde o próprio gauchismo Em comércio vai virando, Onde o forte vai mandando E o fraco sempre oprimido, O herói fica esquecido E a miséria nos rondando.
O que será que ele pensa Com aquela cuia na mão? Talvez seu coração Corcoveie de ansiedade, Talvez olhando a cidade Que foi vila no passado, Vislumbre um pingo encilhado para tropear a saudade.