Por ter Penas na Alma
O badalar do sino Se deu voz a quieta manhã Contraponteando com as patas Dum mouro delgado estradeiro, E junto do miúdo trote As abas largas do sombreiro, Sombreando o rosto calado Moldado em chão tropeiro.
Sofrenou o pingo, apeou, O palheiro já um toco Que apagara girando o pé, O cabresto bem atado (Sinal de quem demora) De fronte ao local sagrado, Solta o barbicacho em respeito Erguendo o seu olhar parado.
Pra quem cortou distâncias No lerdo passo da tropa, Na culatra ou pelo fiador - Pois quando se desgarrava Um boi, num capão de mato, Lá se ia o dito que se espreitava Entre as tramas da galharia, Junto ao mouro que o buscava.
Então... Se fizera um cerno Com as amargas tropeadas Que a vida lhe impusera... (O destino à sua sentença) Desigual os dias de antanho Que já rebuscados na memória, Do rancho, família e fogão, Legados vindos de herança.
A cordeona viva nas noites Sob um céu de Santa-fé, A gurizada correndo Entre as gargalhadas fortes Da primitiva alegria. Donde a lua testemunha Bocejava e partia... E dormiam por toda a parte Despertando com o sol do dia.
Mas se veio um tempo maula Quando os clarins se anunciavam, Calando com as carreiradas A liberdade e todo o sossego... Emudeceram os povoados, Arrancando das famílias o apego, Pois o destino a cada um pertence Como os arreios do pelego.
Calmo, de grande sabedoria Adquirida com toda a sua vivência, Adentrou na sala de manso, Comungando o silêncio com todos, Donde seguiam palavras jovens vindas do altar; Que de fronte a porta, o clarão, Enxergava o sol a brilhar Moldando a silueta De quem adentrara na ocasião.
Ficou de pé com chapéu na mãos Naquela mesma calmaria, Quando se para pra pensar Na lição que nos ensina a vida, Tantas pedras nos caminhos Tantos são nossos espinhos, Não se pode parar pelo meio, Onde o sentimento vagueia Onde o perdão se faz esteio.
De lenço avermelhando o peito, O velho, ao vigário indagou: - Vim pedir a tua benção Como manda a Santa Igreja; Sem dar tamanha importância Pro desconhecido que chegara, Num ar de tolerância O vigário balançou a cabeça... Na vertical da estância.
Antes de findar o meu tempo Preciso me confessar... Preciso cicatrizar a ferida Dos meus vinte anos passados, Que nos rastros desse tempo Ficaram em mim marcados, Picaneando o osso do peito Tal qual as esporas num aporreado.
Parti, guiado pelo cincerro, Alcançando os horizontes... Depois segui nas colunas Com ideais de igualdade, Mas por bueno, quando voltei, Apenas o silêncio e rancho, O rancho... E ninguém mais encontrei...
Então, essas minhas retinas Que a lua cheia temperou, Adormeceram a campo Proseando com as estrelas, Marcando a vida de nada... Cruzando estâncias e fronteiras, Distante de mim e dos meus Pateando por essa vida inteira.
A estrada ficou tingida Pelos tantos desalentos, Mas não deixei apagar o rastro Tendo a saudade por sentença De reencontrar os meus, Nem deixei morrer a esperança De rever o meu início de ser, Porque hoje, só resta lembranças...
Hoje cedito apeei por lá... Aparei um fumo, amaciei a palha, Enquanto as lágrimas Sublinhava meu rosto em despedida, A minha sombra ao chão Escura... Deitada para vida, Carregava esse rude desgosto Sem deixar cicatrizar a ferida.
E é por isso, que ouço tantas vozes Atropelando meu coração, Na teimosa busca da paz, Quero encontrar alegria para mim, Que o tempo me fez render... Vim desvendar este mistério, Pois quando eu for partir Não quero levar junto pro cemitério.
- Padre, Por ser temente a Deus Peço perdão aos meus feitos... "Eu, em nome de Nosso Senhor... Te "abençoou, e te bendigo andarilho” - Então Padre, por eu estar absolvido.. Ouça esse velho caudilho Que também te abençoa... - Meu único e amado filho...