Poema do Entardecer
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Desencilho. A campereada se termina Quando termina a tarde. Arreios, pelegos, avios, Tudo é guardado no galpão da estância, Teto do universo de um peão campeiro Que se forjou na lida.
Eu cevo o amargo, Sem pressa, com respeito. Um mate topetudo e macanudo, Como eram os mates dos avós, Tradicional e secular.
Neste oco de chão que é o meu mundo,
O entardecer. Sim, eu me compreendo diante dele. Diante dos bandos, Flechas negras a rascunhar o horizonte; Diante dos matizes, Aquarelas coloridas de um outono em ascensão; Diante da paisagem que ressonga, Do rio que marejeia, Da querência que encomprida as suas formas, Do sol ardente que, aos poucos, se apaga.
É estranho, Mas neste oco de chão em que me encontro, Eu sinto que o entardecer Também me compreende.
Aqui ele me viu nascer: Um menino, algo entre alegre e curioso; Aqui ele me viu crescer: Um potro sem dono, Em busca da liberdade; Um aprendiz da lida, Senhor do próprio destino, Um capataz da vida.
Aqui, diante do entardecer, Eu me fiz homem. É estranho, Pois neste fundo de chão em que me acho, Eu sinto a minha alma aterrissando em mim, Pois que estava longe, distante, Para além do poente,
Em meio a soalheira, Campeio a cambona. No braseiro o cerne de pau ferro Fumaceia o picumã antigo, Alimentando o fogo de brasas pirilampas Que sustentarão a noite.
O galpão é o meu elemento; Relógio do tempo que sorve as horas Enquanto mateio. Alheio aos meus devaneios, Descortinado diante dos meus olhos, Está o entardecer.
Como se estivesse presente Em comunhão com o próprio criador.
Eu não sou um homem de fé, Mas silencio; E, no silêncio dos mates, Entre os últimos olhares complacentes deste dia, Eu o contemplo pela derradeira vez.
Não há palavras para dizer tudo o que sinto, Nem sentimentos para expressar A carga da emoção que me resguarda; A força do universo está no firmamento, E eu faço parte desta paisagem recriada.
É estranho dizer, paisano, Mas todos os desenganos são pequenos diante deste entardecer.