Alma Xucra
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Através de versos xucros Da minha xucra existência Eu mando á toda querência E ao rancho pobre ou de luxo, Meu verso muito gaúcho De pura essência campeira, Bradando com altivismo, O mesmo amor e afago, Aos quatro cantos do pago, Seja na serra ou fronteira.
Eu sou que nem quero-quero Guardião da várzea e coxilhas, O sangue dos Farroupilhas Eu sinto correr na veia Sou potro que corcoveia Por não querer ser domado Eu fiquei como semente, P’ra contar na poesia A nobreza e valentia Dos nossos antepassados.
Eu sou gaúcho também Tal e qual meus ancestrais, Tenho os mesmos ideais Do velho e guapo xirú, Igual Sepé Tiarajú Também me criei selvagem, Pois desde o primeiro instante Que enxerguei o Universo, Eu chorei rimando um verso, Rendendo ao pampa, homenagem.
Sou o peazito que um dia Deixou o rancho em Santiago, Lá nas fronteiras do pago, Perto do solo Argentino. Me criei mui teatino, Tão longe do meu rincão, Deixei os campos do pampa Para viver na cidade Pra não morrer de saudade Eu vivo p’ra tradição.
Eu sou o potro aporreado Que não aceita o arreio Solto de patas, sem freio, Me criei sempre liberto, Como touro em campo aberto, Eu me criei mem assim! Eu sinto a alma vibrando Pelas proesas do guapo, Eu tenho o sangue Farrapo Fervendo dentro de mim.
Eu só tenho um sentimento Dentro do peito escondido, Por não poder ter vivido Nos tempos que já passaram, P’ra ajudar os que tombaram Lutando com todo afinco. Queria ter o prazer De conhecer pessoalmente O taura guapo e valente Por volta de “trinta e cinco”.
Sou xucro por natureza, Pois sou assim desde a infância Uso com muita arrogância Meu lenço preso ao pescoço Me orgulho porque sou grosso, Como diz o “cala fina” Que não entende as belezas Que nesta pampa se encerra Que é as coisa da nossa terra Que a tradição nos ensina.
Sou o resto de uma raça Moldado no mesmo “cerno” Eu sou o frio do inverno Soprando forte o Minuano, Eu sou o solo pampeano, Que me deu soberania Para poder todo instante Fazer versos com veemência, Saudando minha querência Nas rimas da poesia.
Sou a própria ALMA XUCRA Pois tenho a estirpe charrua, Sou índio da idéia crua Que erra e não se arrepende E aquele que me compreende, Me aceita como eu sou. Sou como o tiro de laço Zunindo ao sopro dos ventos, Eu sou um dos quatro tentos Que a natureza trançou.
Eu sou a água da sanga Que mata a sede do “Qüéra”. Eu sou rancho na tapera Marcando a própria existência, Que nunca muda a aparência Porque habitado já foi, Eu sou o índio proscrito Que errou n’lguma façanha E vim rebuscar na canha Pedindo que Deus perdoe.
Eu sou muito agradecido Ao patrão velho do céu, Ao qual eu tiro o chapéu Com muito gosto e prazer, Por ter me feito nascer Aqui no torrão caudilho. A min’alma se emociona De tanto amor que se expande, Eu te agradeço Rio Grande, Me orgulho por ser teu filho.
Eu teria muita cousa P’rá falar sobre minha terra Mas a emoção que se encerra Me esmaga dentro do peito, Quero falar...não tem jeito! Então eu termino assim... O coração pinoteando, Manoteando de contente: “Eu sou gaúcho minha gente! Só isto basta pra mim”.