Fim de Tarde
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Um vento morno acaricia o pasto Sem muito esforço, sem pressa.
Nesses ermos fundões de campos As garças são naus silenciosas Que carregam sonhos perpétuos Sobre as sangas preguiçosas.
Bois ao longe inanimados, Tropilhas mansas sem mexer cabeças, Visão enfumaçada, Como paisagens de um retrato antigo.
Uma nuvem pacholenta Enveredada de nortes Escorrega de mansinho... Pois bem conhece os caminhos Nesses vazios de tormentas.
Bem ali, compondo o quadro, Um velhito alambrador, Sem queixumes, sem reclames, Esticando os seus arames Com suas mão de suor.
Indaguei-lhe com respeito Da dureza do trabalho Pra quem já é tão gasto!
Ele olhou-me com demora, Puxou um toco de baio, E sem se servir de atalho Abriu sua alma morena Num palavreado tão lindo, Que eu sorvia traduzindo Para os meus entendimentos
- seu moço... o que me pesa Não é o bruto das changas Nem este corpo sem viço, Mas sim, as lembranças rudes E este fastio de quietudes Que deixa amostra os meus medos, Pois nesse sem fim de alambrados Cada trama que eu amarro São contas dos meus segredos.
Já senti o gosto das guerras... Das cargas de espadas e lanças, De clarins ombreando tebas Pras batalhas enfurecidas Mas não são essas feridas Que ao mussitar me conforta, Pois quem traz a alma extraviada Dos amores verdadeiros, Esquece o largo dos campos, De sóis, luas e pirilampos, Pra ruminar desalentos Na solidão dos potreiros. Pensei que as marcas do tempo Me livrassem dos meus medos. Pensei ter enfrenado alpedo Os temores das tormentas! Mas a vida nos dá exemplos Nos conceitos do divino Pois até no peito do taura Há receio de menino. Tenho receio dos ventos Quando eles me mostram sinais...
Às vezes vem de mansito Em outras sobre rajadas Vai varrendo o arvoredo Remexendo o penaredo Armando o maior tendeu. E com os meus olhos nublados, Espio, mui desolado, Que tudo o que ele enrodilha Leva pros lados do céu. O frio também traz agouros Nas melenas entordilhadas...
Quando o senhor inverno chega Com audácias costumeiras, Vem esgaçando porteiras, Pois esta é a lei dos senhores! Vai deixando os campos ermos Fazendo dos ranchos taperas Com almas gemendo esperas Recolhidas em seus louvores E com punhais bem chairados, Este andarilho inclemente, Escreve no peito da gente Seus manuscritos eternos.
Por isso, meu patrãozinho Ao semear moirões, tramas e espinhos, Nesses fundões de meu Deus, Também colho a paz que viceja Neste meu coração de téu-téu. Pra quando findar a minha tarde Esta velha alma, então alada. Possa voejar sossegada Pelos mistérios do céu.
E o velhito se foi... Com o porte de um charrua. E eu fiquei com a alma nua Neste saber mais contido. Que não são como as vaidades, E sim, curando feridas, Que galoparemos verdades Pelos mistérios da vida.