Contrabandista
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Jango Jorge, gaúcho destemido, Conhecia as querências pelo faro... O perfume de uma arvore florida, Ou de capim limão e goiabeiras. Pelo rumor... sabia do terreno, Das águas o cantar alem... passando... Das furnas o ruído singular.
E Jango Jorge nunca se perdia, Campereando na serra ou na fronteira, Não tendo jamais certa a moradia, Gostava de fazer taes gauchadas Que o seu dinheiro logo se sumia, Sem ganas de o guardar, sem um apego, Se no jogo ganhava, ao companheiro distribuía O dinheiro que ganhava, tal qual milho, Às galinhas no terreiro...
Era mestre ! Nas compras do outro lado ! Sem medo dos balaços dos soldados Trazia à brincar tudo o que queria, Alta noite ou então, à luz do dia !
Mas... agora ele está afamiliado ! Em ranchito cuidado e mui risonho. Tem roseiras trepando nas paredes, Um umbu que acolhe os passarinhos, Que convida o gaúcho para a sesta, Sob o docel das ramas de esmeralda, Onde a vida nos ninhos se desfralda Em musica de amor e de carinho.
Muito alegre o seu rancho está em festa ! É o casório da filha tão querida ! A prenda mais bonita do rincão, E a mais viva alegria de sua vida. E os enfeites, que a mãe lhe preparou, Jango Jorge ora pouco tudo achando... Foi de à cavalo lá para o outro lado, Procurar um vestido bem bonito, Sapatinhos de salto e mais um véu, Tudo branco... bem branco... sem labéu !
O dia chega enfim tão esperado ! O noivo está na sala, preparado. Casa cheia, a mulher com muita lida, Põe a mesa bem farta e bem provida. Há churrascos, galinhas e perus Lindos pratos ! E só pra começar, Pois a dispensa está cheia de doces, Que um casório, é preciso festejar!
Mas... a noiva lá dentro está fechada. Pra casar ela espera só o vestido, E o pai demorando com a encomenda, Ó meu Deus, antes não tivesse ido ! E a mãe lhe dizia: Fica quieta, não precisa chorar tanto e assim... O vestido já vem, pode estar certa, E vaes ficar tal qual um querubim !
Mas, a velha que estava acostumada, O Jango Jorge sempre a esperar, Vendo a filha chorando e alarmada, Manda logo um guri a estrada, Para ver se ao longe... no arvoredo, Mesmo longe... seu vulto devisava.
O caminho era longo e era deserto, E a espera se tornara em ansiedade ! Todos queriam ver a linda noiva, Que entraria a irradiar felicidade! Nisto, gritam de fora: Eia, vem gente! E um silencio perpassar a multidão, Ninguém mesmo ainda sabe o assucedido, Mas nos olhos de todos há um aviso, E calados, saíram para o oitão.
E Jango Jorge, volta atravessado No cavalo de sua montaria, Dos noivos no sofá foi colocado, Todos queriam saber, o que é que havia! Ei-lo morto! Por balas alvejado ! Como um cusco qualquer e corriqueiro, Ele ! o valente ! À isto acostumado, Hoje em dia de festa e de noivado Pela morte ei-lo feito prisioneiro...
Destemido, enfrentara lá soldados, Desejando passar para o seu lado E voltar para casa bem ligeiro, Mas falta-lhe a calma de outras vezes, Pensando em sua filha envolta em véu Enfeitada de flor de laranjeira Ajoelhando aos pés daquele altar Que ele mesmo um dia construira Para a filha adorada ajoelhar...
E... de lutar ! Tiveram os amigos, Para o corpo do amigo regressar ! E... aquela gente que ainda não chorara, Ao tirarem ao defunto, um guardado ! Que debaixo do braço está apertado... É da noiva o enxoval ! Bordado em sangue ! Eis que o choro na casa começou... !!!