Alma em Verso
Poesia

AOS OLHOS DE UM INDIO XUCRO

Lauro Antônio Corrêa Simões

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Três anos! Três longos anos E ele voltava com seu jeitão de sempre, Bem de-a-cavalo e chapéu negro requintado. Decerto, envergando o mesmo tirador quase sem flecos; O par de esporas de “quebrar tiranos”, O pala-a-avestruzeiro sem bordados E, a mala-de-garupa boca larga Repleta de histórias e tarecos.

Agora, ele voltava, isto que importa Porque São Pedro não quis abrir-lhe a porta Na rodada mais feia que tivera. Quem sabe o motivo do regalo? ... Talvez, porque naquela primavera, Numa rodada braba d´algum potro, O mesmo acontecera para outro e deus só queria um de-a-cavalo.

Três anos! Três longos anos! ... Voltava em trote chasqueiro como se o pingo de monta Soubesse da imensidade daquela alma sedenta Para rever-se, afinal, no cristal do espelho d´água Da cacimbinha em pedrada dos tempos do faz-de-conta.

O tirrim da espora grande Porfiando de contraponto ao som do coscós do freio, Anunciava pelo campo, no alce dos quero-queros O retorno de mais um criado sobre os arreios.

Voltava pleno de orgulho saber o valor da vida Porque é no cimbronaço que se aprende o costeio E pra “touros” e ventenas o viver usa o “cachorro” Pois, preso pelo focinho não se nega o cabresteio.

Ah! Se não fosse a rodada e que o levassem à força Pra remendar os estragos e emendar alguns pucheros Saberia quase nada, além de lidar com potros, Tosar nalguma comparsa ou consertar uns aperos.

Sim! As andanças ensinam por rude que o homem seja! Dignidade e razão, compreendera a importância E aos tentos de um laço forte, sem querer as comparara Porque igualava na essência o rico e o peão de estância.

No fim, até que a rodada mais lhe deu do que tirou! Lhe deu a luz dos caminhos ao ensinar-lhe os desvãos, Porque as coisas verdadeiras que valem mesmo a pena Só se as pode avistar com olhos do coração. Foi guardando na memória essas leis tantas da vida.

Enfim, florescendo aos poucos como o nascer de um poema Que o mundo nem sempre dita, mas gosta de nos cobrar E, quem precisa, obedece! Senão, mango e nazarenas!

La maula! Um homem se doma como se doma um cavalo! Um buçalzinho de corda, quando o flete ainda potrilho! Pra o guri uma bombacha o faz sentir-se homenzinho E, assim, começa a história de quem chamamos de filho!

E quanto orgulho sentido dos pais na amadrinhada Porque o viver não dá tréguas ao homem e ao animal E quem voltava sabia que o respeito e a amizade São bens para a vida inteira. Com ele foi tudo igual!

Repisando o próprio rastro pra rever coisas queridas E escorraçar as tristezas, num gesto de rebeldia. Este é gaúcho que volta a matutar em silêncio Do que seria da vida sem sonhos e fantasias?

Nos mates da madrugada recolheu os seus fantasmas E a alma encilhou o pingo para, enfim, voltar à cena. A fé revigora o homem porque há poesia na luta E quando foge a esperança é quando morre o poema.

Aos olhos de um índio xucro também se acendem visões E o coração fogoneiro de pronto abre a sua mala. Por isto a estrada, em verdade, ainda é a melhor escola Que a peiteira não sufoca quem sabe desabotoá-la. Das tantas coisas da vida, talvez a maior valia Se deva dar o amor, aquilo que mais se quer. À terra que nos acolhe no labor do dia a dia E o sincero bem-querer entre o homem e a mulher.

Três anos! Três longos anos! ... Voltava revigorado e isto se lia em seus olhos. O mesmo jeitão de sempre, porém, trazendo outra luz... Talvez o clarão da vida a iluminar-lhe a essência Ou, quem sabe, algum candieiro que lhe emprestara Jesus!