Romance da Rosa Plena
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A Rosa que foi de muitos agora é Rosa de um só. China de casa montada na ruazinha arredada onde macegas e ventos bailam vestidos de pó.
Vozes lhe batem à porta e a chamam de "rapariga". Rosa disfarça, não liga, cerra as cortinas e os olhos se adentra dentro de si. Custou-lhe chegar ali: - na sala quatro por quatro, no quarto quatro por três, no dar-se sem entregar-se, a quem a toma e em troca lhe paga as contas do mês.
Não mais a gueixa sem marca sempre pronta pra mais um. Não mais a mansa de arreio mordendo o ferro do freio sem refugar a nenhum.
Não mais a noite indormida vendendo carne e mentira por notas de cem mil réis. Não mais o batom cereja rindo na boca cansada mordida a cuspe e cerveja no roxo dos cabarés.
Disso ficou-lhe a lembrança, a cicatriz, a memória, os episódios da história escrita a tinta de vinhos na carne das meretrizes. (Nunca esquece de onde veio quem chega e planta raízes).
Semente ao vento, plantou-se quem fora terra de planta para a semente dos machos. Agora, só um a tem quando vem e quando a quer. Só um se aninha em seis peitos para exercer o direito de dono de uma mulher.
Mas a noite é de recuerdos, é de silêncios que gritam, de arremessos e uivos de cães danados no seio. E ele, seu dono, não veio.
Não veio para tomá-la, ferí-la de pluma e garras, rasgar-lhe o ventre onde canta todo um verão de cigarras. E Rosa, transfigurada, por ventos de danação, volta a ser quem Rosa era, desnudo o corpo vestido por lençóis de solidão.
Mãos de fogo nos lunares dos seios de clara carne sob os macios do lençol. Rosa - a de ontem - se assoma nas chamas vivas que a tomam toda de sal e de sol.
Entre cambraias de gelo Rosa em brasa se levanta na cama que a emoldura como num quadro de santa. Arde-lhe a carne madura na noite propiciatória e Rosa goza-se impura tomada pela memória.
Rosa de pétalas rubras. Rosa plena. Dela só.