Alma em Verso
Poesia

Viagem Pela Memória do Trem

Apparício Silva Rillo

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Antes do trem, chega o apito fino e, agente aque espera o trem toda se empolga para ver o filme que, um dia sim, outro não, passa no cinema a poeira da estação.

O trem que vem trás quadros e quadrados que levam nas molduras os retratos, que falam, riem e asenão com as mãos. O trem é sempre o mesmo filme, cada dia sim , cada dia não, ninguém paga ingresso e todos vêem a nobre fita do trem, que passa e que repassa na terra em cores mutantes, que ora é verde quando é mato, é ocre quando barranco. E de surpresa a luz branca do sol na tela do céu...

”Olha a bala de cocô, Olha bala de cocô”... Quem que quer? A estaçãozinha é uma ilha rodeada de verdes, da querência. Reticentir no aparelho morse, no tic-tac-tataque que transmite... “Estou perdida”! Mas chega o trem da cidade, quanta gente colorida, e a estaçãozinha parece ter renascido pra vida.

”Seu Guarda-Chave atenção, Ai vem o trem da noite, acenda a luz do lampião, abra os ouvidos irmão, apurre os olhos de ave, se errar a boca da chave, vai suceder confunsão, um trem de bico no outro em um beijo de traição”. ”Seu Guarda-Chave, obrigado, seus golpes de mão esperta são a saúde do trem, e dos que vem embarcados, são a saúde também”.

A fumaça desenha o caminho do trem, mas se perde na curva antes da ponte que encilha o rio. - ”Olha Maria, a fumaça do trenzinho ta mudando de feitíl. ”João que lindo, mais parece um passarinho”. ”Pois pra mim não me parece, pra mim o bicho é bugio”.

Ferve a roda, traz a moda, das notícias do mundo, reescrito a cada dia nas folhas de jornal... Tão guerriando nas Árabias meu compadre. Donde fica este lugar? Longito segundo entendo, d'otra banda do mar. E dá pra ir d'cavalo? Sendo do pêlo tordilho, o tordilho é um barco n'água. Ha... até que da pra arrisca!

Ferve a roda trás a moda, das notícias do mundo reescrito a cada dia nas folhas de jornal... ”Olha o diário, correio”. O pregão de revesteio, vestido de coronel. - Vai leva? “Hu... não vô leva, deixei de compra jornal, só ouvo rádio que agente gira os botão e se muda quando a notícia de mal”.

O sonho do menino era montar uma vez, o cavalo de ferro e olho de braza, que vinha puxando o trem, renquete, renquete, deixando, baixando, renquete, renquete. Um dia ficou na frente para pular na garupa, upa e upa e la vou eu... Ficou nas patas de ferro do cavalo olho de braza que tanto o quisera seu.

Vão-se os boizinhos de campo, pelo trem mungidos e mugidos, no seu apito rôco de, não volta mais, e, nunca mais... Os boizinhos não sabem mais um dia voltam, nas latas redondas de carneem conserva, para o armazém. Sempre volta, de algum modo, quem saiu de sua terra, pelo caminho do trem.

No vagão de carga vai o trigo, caminho para o muinho, num bonquete, bonquete, bonquete, bom. O trigo também não sabe, mas um dia, um dia voltará, em uma bolsa de farinha timbrada em tintas de rubro, lá pela volta da Apá, para gamelas de massa, que de onde o pão que amanhece, Sai para o forno aquecido, com brasas de Cambuatá. E, Pé-quete-pé, do forno para mesa, para da gente que toma o café. Café com pão novo, que bom que ele é.

Sempre volta, de algum modo, quem sai de sua terra pelo caminho do trem. O guri corre o balaio em um momento, não maior que três minutos... - ”Pastel quentinho, ovo e carne”. - Tem azeitona comadre! Da janela a negra ativa: -Vai vê que é pastel de vento, que assopra e a gente se gripa”! Ficam os pasteis, nem um reis, pelo que há no balaio.

Se vai o trem como um raio. O sino da estação...blén-quete-blém, dispede o trem. Rasga, ringe, a roda, rocha, pelo rio liso dos trilhos. -Até a volta”... Os vagões com sua escolta, como tatus cavocando, para frente,para frente, para frente. Abrindo um burraco ocô, na matéria do ar, limpo e salinte.E na estaçãozinha os minutos para a festa de sua gente.

E ficam todos olhando a rabeira do trem que, sacode, que sacode, com este jogo de traseira, que todo a mulher faceira, sabe que tem e provoca, provoca e sabe que tem. E lá se vão sacudindo rabeira de femêa e trem.

Se minha casa sem rodas, tivesse asas. Há... mas se tivesse asas. Se minha esperança que não dança, tivesse trilhos.Há, mas se tivesse trilhos eu me ia, há se me ia. Pelos fundos, pela frente, pelo mundão diferente deste meu mundo de ideais. Com este trem que ai vem, com este trem que ai vai...