Alma em Verso
Poesia

9. O Caudilho e o Bastardo – Arabi Rodrigues e José Luiz dos Santos

Arabi Rodrigues e José Luiz dos Santos

I Estância da Poesia Crioula - VirtualPublicado em

O Nico encilhou de tarde, no “Rincão da Timbaúva”. O tempo ameaçando chuva, silêncio em ponto d’alarde. Por que será, que o covarde, planeja tudo em segredo? É o medo de ter medo, que faz prever o futuro, ou é o disfarce do “perjuro”, que enxerga a morte mais cedo?

Pois, não vê, que a noite traz, presságios do tempo antigo. Bem assim, como lhe digo: o Nico, por ser audaz trabalhou de capataz na “Estância do Espinilho” e por lá deixou um filho, co’a filha do fazendeiro, que por fim, seria herdeiro, das patacas do caudilho.

Com o tempo, tudo muda, até o sentido de ver. Se a dor ensina a gemer, não há mandinga que acuda. Quando a consciência desgruda dum interesse maior; quem guarda a lição de cor, sabe bem aonde vai; o filho que honra o pai, mantém Deus ao seu redor.

O tempo anda parado, o mundo segue seu giro; num repente, como um tiro o guri, tinha chegado, ao ponto de ser chamado, pra inspeção e sentar praça. Para a mãe, mais uma graça, pro pai, motivo de orgulho; para o avô, o mangrulho: da desonra e da desgraça.

Agora, daqui pra frente, o bastardo terá nome. -A raiva, quando consome, o bom senso dum vivente; faz “de pronto”, o penitente, dar vida a destemperança, e o desejo de vingança, começa a falar mais alto. -Retorna num sobressalto, o que não sai da lembrança.

O Nico, saiu do trilho no desvio - de sua filha; tinha invadido a família, num descuido do caudilho. -Mas, no retrato do filho, enxergava o “domador”. À sombra de seu horror, mandou chamar um capanga; pr’uma tocaia na sanga, no final do “corredor”.

-Antenor, esse crinudo, não pode ferir ninguém. Depois, escolhe também, um lugar, longe de tudo, pra enterrar esse beiçudo, que não consigo esquecer. Somente quero te ver, depois, do serviço feito. - “Guaiaca cheia”, o preceito pra compensar teu dever.

Veio a noite e foi embora, veio a outra e também foi. -O velho, escolheu um boi, e mandou carnear na hora. Mas, durante “o bota fora”, o guri apareceu; logo em seguida entendeu, o que havia acontecido. Será que o pai foi ferido, tinha peleado, ou morreu?

Aqui, o primeiro grito d’independência total. Era homem, “sem buçal” um taura qu’anda solito; não vê no pai, um proscrito, nem um bandido qualquer. Diga ao povo, o que quiser, mas, coragem, não se aluga; nenhum ventena, refuga um carinho de mulher. A mãe contou a verdade, que guardava a sete chaves, pra retirar os entraves em nome da lealdade. O pai, pela liberdade “templou” a vida ao relento, enfrentando chuva e vento, geada, sol e mormaço. venceu o tempo no braço, pra garantir o sustento.

Porque será que o destino põe pessoas em confronto, num medonho desencontro; de fazer perder o tino. Onde a visão dum menino à mão do Patrão Eterno transforma o mundo moderno num sistema mais antigo fazendo frente ao perigo em honra ao sangue paterno.

Nas patas dum zaino escuro o longe se fez mais perto, à noite de céu aberto, um prenúncio de futuro. Ao ver o pai em apuro, veio o avô na lembrança, em regozijo, a festança comemorando a tocaia, co’a morte cruzando a raia num passo de contradança.

Na trança do ferro branco, o Nico mostrou valor, atropelou o Antenor, que também não era manco, e já no segundo arranco, o Nico foi lastimado, num talho de atravessado de “rachá” o mundo no meio. E no final do careio, há um capanga degolado.

A estância ficou dispersa, no sonho do bem querer; o avô deixou de ser, o princípio da conversa. Ante a situação inversa, o perdão e a indulgência; trazem nova referência, como medida de peso, pra quem usou o desprezo no decorrer da existência.