Breve romance dos despachados
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Quero que saibas, meu irmão de trago, que nesta noite quase dia compartilhas deste balcão; que esta estampa judiada de andarilho sem rumo é o rascunho de um passado que o próprio tempo apagou...
Estes cabelos mouros- acredite- já foram asas centauras que suas vinchas prendiam nos dias de marcação.
-Estes braços tremelicantes Fiapos de nervos cansados, já foram cernes de angico, garras de aço nas tesouras das tosquias de Santana!
Repara bem parceiro, neste tento que me serve de guaiaca, prendendo mal e mal este resto de bombacha... ...ele já foi parte de um laço de treze braças. que num armadão fachudaço jamais “encharutava”. indo aninhar-se tranqüilo nas aspas de um touro pampa, destes que fazem “rosca na cola” quando um pingo cruza o rastro nos rodeios do Rio Grande!
E estes olhos sem brilho que a catarata nublou, parece mentira que foram faróis de cruzar distâncias e alumiar lonjuras em tantas noites de ronda, quando as tropas faziam estradas nas planícies de Aceguá!
É bem verdade que cruzei fronteiras, risquei caminhos, picaniei o destino e busquei progresso... ...mas sempre para os outros!
Não tive tempo para mim porque na faina campeira o suor vale muito pouco e o tempo sempre é contado pelo relógio do patrão...
E assim parceiro, quando estas pernas fraquearam e não pude mais ginetear,
a fazenda ficou pequena contrataram outro torena e eu herdei o corredor...
Por algum tempo changuiei uns pilas mirrados, que me davam, mais por pena que por paga, gente que me vira monarca culatreando tropas e engordando as burras dos barões do pampa...
...depois me afundei na vida, já sem cavalo, (o meu morrera cedo, talvez por desgosto de ver o dono em frangalhos) vendi as garras por poucas patacas, já que a mim não sobram nem galpões pra guardar trastes...
Da mitológica figura de centauro andante, do laçados, ginete e tropeiro, do cirurgião das mangueiras que castrava por um trago de cachaça, dele, nada mais resta...
Talvez a tua figura, irmão de trago, recém chegada do campo, tão espoliado quanto eu, tenha acordado em meu peito uma réstia de nostalgia...
A nós, parceiro, resta o esquecimento dos bolichos E a parte pobre de cemitério numa cruz sem inscrição. ...pois aos parias não se acendem velas, já que a solidão não gera filhos e nem netos pra chorar.