Alma em Verso
Poesia

Das Folhas Mortas

Ari Pinheiro

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O vento de abril deixou um rastro De folhas mortas pelo chão... Levou as andorinhas Levou as largas tardes quentes E até uma pequena réstia, Esquecida de verão...

Ah, ventito maleva... Não sabes o quanto levastes de mim Quando abriste a tua tarrafa Sobre o pampa Até os meus sonhos passarinheiros Abriram a mala-de-poncho da memória E se guasquearam de crina alçada Agarrados no teu lombo...

... Do açude grande da frente Um bando de marrecas piadeiras Partiu em silêncio Pela primeira vez sem alarde... Nem voejaram sobre o rancho Como de costume Mas partiram de largo Arribadas pelas asas da tarde...

Na soleira da janela A cascata dos meus olhos Construiu outro açude Onde só a saudade Vem molhar as penas

... Ahh ventito... Tu que puxas O cabresto forte das invernias Sem se importar com o paisano Só tu é que me entendes Só tu é que podes entender O quanto custa Cabrestear a vida...

Até a garça branca Vestiu o pala e se foi Partiu sem me dar adeus Sem ao menos olhar prá trás...

Só elas ficaram... Só as folhas mortas ficaram Como mudas testemunhas de minha ermitage... Com seus bailados malucos Tentam alegrar os últimos vestígios do dia Depois... Depois amoitam-se Timidamente sob os plátanos...

Então um pirilampo vem acender a lamparina Tentando iluminar a noite Que chega despovoada de estrelas O coitado está só ... Os outros partiram Para iluminar novas paragens de verão...

Então me dou conta. Não ! Não estás só pirilampo! Cá estamos Eu, o vento e as folhas mortas... Juntos havemos De passar todas as invernias! E quando brotarem As folhas vivas da primavera A tua lamparina há de reacender as manhãs E eu e o vento estaremos de pé Como palamques vivos da querência Rebrotando a cada dia Sobre o adubo sagrado Das folhas mortas...

Benditas folhas mortas, Sustentáculos da vida !!!