Alma em Verso
Poesia

QUANDO UM VERSO CORCOVEIA

Ari Pinheiro

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Quando um verso corcoveia Na goela de um payador Em mais um canto de flor Para o pago renascer Vejo o campo florecer Em cada linha traçada Escuto a voz embargada Deste menestrel campeiro Que teima enxergar luzeiros Entre nuvens carregadas... Me arrisco, picando a prima E beliscando o bordão Emparelhar meu violão Para sentir cada tranco Entre alambrado e barranco Onde o tema se dilui A minha mente conclui Que um verso assim, bem botado É um regalo do passado Para o domador que fui... E então, o tempo se acorda Com tinidos de chilenas Com relinchos de ventenas E perfumes de alecrins E reverberam em mim Latidos de um cusco amigo Cantigas de um tempo antigo Que eu já pensava ocultas Mas não estavam sepultas Pois vieram junto comigo... O verso as vezes se acalma E de repente se levanta O menestrel não se espanta Sabe de baldas e domas Nesta lida redomona De entender tantos meneios As verdades e os anseios Montando versos de outros Corcoveando como pôtros Querendo extraviar arreios... Então, das dobras do tempo Um tostado cosquilhoso Volta arrastando o tozo Mordendo e buscando a volta A minha mente se solta Agarrando couro com crina Nos vamos de relancina Perdendo o tino e o trilho Até que a toca de um zurrilho Reescreve história e sina! Eis um morto e um quebrado Sobrando desse retôsso Partidos, pata e pescoço É triste o fim do tostado E eu, caído e calado Ali, na grama macia Me dei conta nesse dia Que mesmo taura aragano Já não tinha o mesmo tutano Dos tempos de galhardia... Aposentei as esporas E as garras de domador Enveredei corredor Buscando estradas reais Nunca mais montei baguais Nem enfrenei redomão Fiz meu parceiro o violão Bem mais doce e afinado E me vim fazer costado Nos palcos dos festivais... Mas quem disse que a alma Abriria mão de tudo Sofrenando um grito mudo Ardendo dentro do peito Hoje, no banco me ajeito Enforquilhado, sem assombro Como se estivesse no lombo Daquele xucro tostado Que me fez um exilado Naquele último tombo... E o grito aflora no más Entre um bordoneio e outro Pois eu sei que o verso é um potro Saltando dentro da rima Com a quincha do céu por cima Se vão, tema e domador O guasca versejador Vai surrando dos dois lados E eu, sempre no seu costado Me vou de amadrinhador!