As Noites do Guassupi
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Com seu cortejo de sombras a noite surpreende a tarde, o aroma das primaveras maçanilhas e alfazemas preenche espaços vazios entre o olhar e o sentir. Linha fixa o horizonte as vezes se achega mais por outras dispara e para. Se esgueirando vagarosa a estrada parece estranha entre o demais da paisagem.
Sonhos de muitos andores no batente das porteiras, moradas, naves solitas na maré mansa dos campos. Taperas em alvoroço no imaginário da gente. Não dorme nunca, não dorme, vela o sono ao derredor, aponta sempre o horizonte de qualquer ponto de si, a estrada é mundo de todos ligando mundos dispersos.
O rio estende a preguiça desenhando no varzedo, cinzelando com paciência a face nua das rochas. Se acalma na noite mansa prá o passeio das estrelas e para o banho da lua que vai de um quarto prá outro trocando sempre a roupagem no afã de encantar o rio onde se mira vaidosa com seus fulgores de prata.
Aqui a noite se esgueira não cai, apenas se chega o dia também, não se vai faz uma pausa em retiro por detrás da serrania e as vezes quando desperta por sobre a crista dos cerros há respingos de sereno na face rubra da aurora alguma nesga de negro sobre o claro da alvorada a noite parte “ al despacio” no vale do Guassupi.
As silhuetas dos cerros recortadas contra o céu parecem grandes fantasmas sob o clarão da boieira. Corujeiros, dois faróis prescutam dentro da noite varredura de rotina vigilando a mataria. Um sapo regente mor rege uma orquestra maviosa entoando canções antigas em contra canto a dos grilos.
Quando as estrelas se ausentam e a lua dorme mais cedo, cá embaixo no grande vale um lento acender e apagar, procissão de vaga-lumes com seu luzir andarilho. Creio que andam na busca de algo um tanto encantado, talvez os baios- ruano do negro do pastoreio quem sabe, o rastro da moura que se sumiu no Jarau.
Hora grande, madrugada o silêncio encontra a noite. O que se ouve, se cala o que se move, se recolhe só a brisa afaga os cachos do arrozal em promessa de oferenda silenciosa. A cachoeira se reverte não corre, se põe imóvel. nessa hora a mão de Deus se faz benção, proteção o vale inteiro adormece.