Borracho
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Borracho! Era como me chamavam, E tinham toda a razão! Beber era uma devoção, E eu vivia embriagado. Sobre o balcão do boteco Eu passava a noite inteira, Metido na bebedeira, Com borrachos emparceirado.
E quantas noites de frio, Num banco duro de praça, Encharcado de cachaça, Sem saber o que fazia; Me arrojava como um trapo, Como um mendigo, atirado, Despertando estonteado, Já quase ao surgir do dia.
E em casa a filharada Abandonada, penando, E uma mulher me esperando, Debruçada na janela. Benta mulher! Uma santa! Sem querer exagerar: Uma gruta, um altar, Era pouco para ela.
E no final da embriaguez Um sentimento profundo De ódio e rancor do mundo Me consumia o viver. Mas para buscar alívio Ao meu estado de alma, Eu só encontrava a calma, Quando voltava a beber.
E assim, foram os dias e anos, E eu fui borracho, viciado. Um infeliz, desgraçado, Vencido pela bebida! Não tinha nenhum prazer A enfeitar minha existência, Era como uma penitência A marcar minha vida.
Todos me olhavam com nojo, Com desprezo e ironia, Mas eu, bêbado, prosseguia Nessa cruzada de louco. Só um anjo me guardava: - Uma mulher - uma prenda - Pra quem - Deus me compreenda - Um altar é muito pouco! Um dia, eu nem sei como, - Talvez por bênção divina - Terminou a minha sina. Como? Eu não sei dizer. O mundo abriu-se em luz Nas trevas da minha vida, Tomei nojo da bebida E, então, deixei de beber.
Hoje me olho no espelho E falo assim comigo: - Como mudastes, amigo, E como tudo mudou. - Teu lar é um paraíso; - Teus filhos hoje são gente; E uma voz de repente, Que me diz: e eu aqui?!
Minha mulher ri e chora, E confesso, envergonhado, Não me atiro, ajoelhado, Por ser homem e ser macho. Mas estendo os braços, grito: - Bendito sejam os meus! - Graças aos céus, e a Deus, Já não sou mais um borracho!