João Gritão
Semblante triste Num corpo franzino Dobrado pela passagem dos anos. Estampa de um campeiro Que já não pode mais camperear. Alcunha "João Gritão” (Ganhara este apelido pela gritaria ao repontar as tropas quando moço). Desde muito pequeno João Gritão trabalhava com o gado, Atrevo-me a dizer que antes mesmo de caminhar já galopeava no seu tordilho, Que foi o primeiro presente do avô. Com o tempo, outros cavalos e muitas campereadas. Foi crescendo solito, Ao rigor da vida campeira. Gostava também das carreiras: Pata a pata, orelha a orelha! Muita carreira ganhou! Ou apenas comemorou, gritou e torceu! Pois gostava mesmo era da folia e da gritaria. No tempo das tropas largas meio ainda gurizote, Era ele quem comandava. Sempre muito cuidadoso, Sem perder uma rês sequer. Fez-se tropeiro por escolha. E amava seu ganha pão! Quando tinham que atravessar o gado por algum rio Era ele, João Gritão, Que entrava dentro d ’água E chamava a rês da ponta pra fazer pegar o nado. Mas a vida passa e o tempo é ardiloso . E o corpo do peão já não responde aos seus comandos. Triste, vê apenas a tropa passar E para alguém é preciso deixar Seus apetrechos de peão. Como não tivera filhos , pra quem há de deixar? Será que a história de João Gritão irá se apagar? Afinal, quem não deixa rastros, Vira fumaça no ar. Por isso, quis contar A história deste campeiro, Um simples brasileiro. Que trabalhou, lutou e morreu. Sem deixar filhos seus Para contar sua história. Mas que mesmo na derradeira hora Honrou o nome que teve. E morreu gritando como quem levasse uma tropa Para sagrados campos E no céu continuou campereando para alegrar a DEUS!