07 - A Negra Poesia - Caine Teixeira Garcia
15º Bivaque da Poesia GáuchaPublicado em
Ela sonhava em ser poesia... E nunca soube ser mansidão! Te aquieta! - a realidade dizia – Pois ninguém vive de ilusão! No sonho, uma quase utopia - que habitava seu coração – Singrava as noites e os dias Na abarbarada geografia Do sul do sul desse rincão...
Com o capitão do mato em vigia, Era tronco, cozinha e fogão... Rimava tempo e esperas vazias Com a dor da própria criação! Mas, a cada amanhecer, renascia, Por ter no cerne, a vocação: De ser - por seus versos - magia Brilhando pelas sesmarias, Qual um luzeiro na escuridão!
Lavava roupa...também cerzia... Cuidava da “boia”... e da plantação! Sussurrando os versos que paria - que eram como estrelas-guias – Plantou pela querência bravia As suas sementes de inspiração!
Ela sonhava em ser poesia... I o mundo maula dizia NÃO! Mas, ao manter-se em rebeldia Iivre, voava - de pés no chão – E quanto mais o castigo lhe doía Aí, tanto mais ela tinha noção: Aquela estância era uma apologia Ao total desamor que lhe cabia Jamais haveria dó... nem compaixão!
Na tez dessa pampa em covardia.
De crueldade... e de judiação Quando a morte dura, lhe sorria De grilhões e chibata nas mãos, No color ardente, ou no frio em porfia De rachar o espírito e o garrão, De tristeza, porém, não se vestia! Sempre fora primavera - e sabia Florescer seus versos em oração!
Sem estudo... e sem caligrafia E para a poesia, sem permissão! Mas, depois que a lida a esquecia Por entre os poemas, adormecia E todo o universo se enternecia Com o velho tempo a pedir perdão!
Ela sonhava em ser poesia... Mas, sem batismo ou comunhão, Sem pai e mãe lambendo a cria, Foi dos caprichos do patrão! E ainda criança - tão novinha – Sentiu no ventre a escravidão! Dura verdade, que se escondia Nas omissões da sua “patroinha” Por entre a senzala e o casarão...
Pois de seu, nada ela possuía E nunca tivera alfabetização... Por isso, ninguém compreendia Como ela voava - de pés no chão! Até nas tarefas do dia a dia No vai e vem de socar pilão, Enquanto o cansaço a consumia A mente liberta dessa Maria Poetizava em outra dimensão!
A vida é uma curta travessia... Da eternidade, é só um clarão! Então, o amanhã se fez nostalgia O tempo passou - e quem diria? Que as tantas penas que sentia Seriam as chaves da sua prisão!
Sim... ela sonhava em ser poesia... Num desafio à imperfeição! Então, já com o corpo em agonia - findando um ciclo de expiação – Sua alma viajou para além da utopia Enterrando matéria e provação! Foi buscar morada e companhia Num recanto de luz e calmaria Onde todos são tratados como irmãos!
O certo, é que desde esse dia Ninguém mais viu a pobre Maria Aquela bela e negra poesia Abençoada na dor que sofria E que voava de pés no chão...
Sumiu, ganhou a sua alforria! E há quem diga - e dê garantia – Que ainda escuta a voz de Maria A inspirar com sua doce poesia O sul do sul desse rincão...