Epifania
Confessei-me em silêncio ...a lua, ouvindo minhas preces. Repontei quimeras, ao vento - Quem sonha, não adormece! E a noite soube que o sonho É um flete de perdas e ganhos Que a freio nenhum obedece... Sonhei bem além das estâncias .... dos calos impressos nas mãos! Em quarto crescente, as ânsias Partejavam luz na escuridão... Em sete cordas, assobiava Um minuano - de alma gelada ...me deu saudades do galpão... Último olhar às rodas de carreta Que enfeitavam a propriedade... Sem eixo, junta ou parelha Tão apartadas... na saudade! Quem já repontou progresso Morreu, para ser o endereço E “dar vida” à “modernidade”... Cruzei a porteira em silêncio Pondo a alma no corredor... Meu zaino, atirando o freio - de tiro, um mouro, escarceadorl Enrolei a preceito, um palheiro E enquanto rangiam os arreios
Rumbiei, ruminando minha dor. Com a lua engarupada A noite era um sonho - e mais nada Serenando no tirador.... Sonhei muito além das estradas - horizontes de imensidão E ao ver a vida empoeirada Nas estrelas dos “garrão”, O vento tiniu as rosetas Fazendo tremer as baetas Do meu poncho-solidão ...pois duas rodas de carreta Enfeitavam a propriedade ... ... parti, uma dor, de jugo e maneia De tiro, o mouro ... e a saudade! Um tropeiro de tantas tropas Se foi, repontando as sobras De um coração em metade... Singrei rincões em silêncio ... e a lua sabendo os motivos Os sonhos pingando no lenço - De um jeito meio furtivo O fizeram mais vermelho Quase me pondo de joelhos E dos pensamentos, cativo ... A lua segredou à boieira Que minhas lágrimas fronteiras Salgaram pampa e motivos... Sonhei com o que já possuía - mas que a razão renegava! Fechei meus olhos pra o dia Que a vida me entregava... Restaram em meus peçuelos O negro dos fios de cabelo Num lencinho que ela usava... E as duas rodas de carreta Ficaram, então, no passado... Mas ainda guardo, morena Teus doces beijos - roubados! O amor não poderia vingar... Quem não se apega a um lugar Talvez não deva ser amado... O tempo, por maula e ligeiro Levou meus dias pela mão .., De quando em vez, ainda penso Em dar de rédeas àquele chão Mas com a noite me aconselho: Sou somente um peão velho? E ela amanhece, sem dizer não... Será que a lua - que me acompanha Ainda ilumina, nestas campanhas A outra metade do meu coração? E a alma lamenta a resposta Na epifania, em verdade exposta Pra quem só ouviu a razão ...