MEU VERSO JUDIADO - Caine Teixeira Garcia
19º Bivaque da Poesia GaúchaPublicado em
Vai bem judiado o meu verso Já quase vencido, estropiado... Quem sabe, cansado da lida E de camperear com o gado. Bem estribado, ainda assim, Firme nas pernas cambotas! Com um par de estrelas de chão Fazendo mossa nas botas!
Assoviando coplas ao vento - milongas de um tempo antigo – Dessas que a pampa oferece Quase num tom de castigo! Um palheiro meio apagado Enfumaçando o bigode farto, Um velho lenço a meia espalda Um verso antigo, de fato!
Meu verso vai num tranquito, Curtido do pó das estradas, Deixando marcas no tempo Com meias-luas cansadas... Tem fome e sede incontidas E uma cruz no céu encravada, Que lhe aponta os caminhos De ser querência e mais nada!
Sovando lombilho e badana No sul do sul desse país, Um desbravador de fronteiras Mantendo viva a sua raiz! E foi de tanto "bandeá" tropa Em tempo feio e enfarruscado, Que cedo aprendeu a manha De encilhar com o pelego virado!
O meu verso leva à cintura Um aço bueno que foi tesoura, E que ele mesmo afiou Num lombo de pedra moura! ... e dizem que é enfeitiçada Essa xerenga de palmo e meio... Certa feita, ao defender o verso, Provou o gosto do sangue alheio!
No tirador, indeléveis marcas, Timbradas por golpes de laço! Batismos de pelo e sangue, Riscos de guampa e balaço. E a velha trança nos tentos, Apresilhada pras "precisão", São doze braças lonqueadas De um boi arisco e refugão.
Parceiros, à sombra do verso E do pingo - um flete de lei – Dois ovelheiros gaúchos Honrando a estirpe da grei! Preso ao barbicacho de couro Vai bem tapeado o chapéu... O relho, junto à faca ou ao braço "Respeito" seguro pelo fiel!
Meu verso cruza os corredores, Vence sangas e mananciais... Deixa rastros nas coxilhas, Exala incenso dos pastiçais... Arreios simples, pilcha modesta, Nasceu campeiro - vive sem luxo - Dialeto terrunho, bem da fronteira, A velha essência de ser gaúcho!
Parido em meio a campanha, Tornou-se o próprio Rio Grande! A estampa da pátria sulina Por onde quer que ele ande... Talvez por isso a insistência De andar bebendo horizontes, Presente olfateando o futuro Com a alma fincada no ontem!
O meu verso lapida suas rimas Gastando esporas no pago, Sorve lendas, cultura e vida, Nas seivas do mate amargo! Por ser viciado em cambicho Tem cicatrizes de adaga e bala, E o perfume das conquistas Benzendo as franjas do pala...
A faixa antiga, e de bom feitio, Chinchando uma de dois panos... Um cinto largo, de couro bueno, Meu verso é charrua pampeano!
Sem governante, sem dono, Num jeitão simples e arredio, Um poncho pátria nos tentos Que é trincheira contra o frio!
O meu verso puro e ancestral Vem das origens desse chão, Do tempo das "garrão" de potro E de apartar gado chimarrão... Legado pulsando no sangue De geração para geração, Traz o canto nativo e criollo Na garganta e no coração!
Mas como tudo que vive e existe O meu verso vai se apagando, Igual ao tropeiro e a carreta Que ao tempo foram findando... Mas por ser xucro e fronteiro Ele há de deixar descendência, Reverberando o gaúcho Pelos rincões da querência!
Sim... vai combalido o meu verso, E com ganas de desencilhar... De largar o pingo pro campo, E quem sabe, enfim, descansar! Levando esperanças de tiro - e a fé no Senhor meu Deus – Adelante, judiado, prossigo, Pois esse verso que falo sou eu!