Quando o Poeta Chorou
Quando o poeta chorou A dor feriu, mortal como bala! Puseram-se sonhos na mala Que o destino guardou. Havia um grito “prendido” Um olhar mais que sofrido E voz nenhuma na fala...
Recrudeceram outonos nas folhas Amareladas - em tez papel... E a geada - sob o chapéu Denunciava a conta dos dias Na tarca inclemente dos anos... Tempos fartos de desenganos Olhar num poço... e imenso breu...
Havia um furor de tudo – e de nada Atormentando o silêncio Quando o próprio pensamento Vagava, sem rumo certo... O vento, de cinamomos e mólios Sangrou tristeza dos olhos E “benzeu” de salmoura o lenço!
Escancaram-se todas as portas Quando impiedosa, a dor se achegou... E o pobre rancho “desmoronou” Prenhe de ausências e agruras... Plantou-se um ar de tapera, Morreu em flor, a primavera Quando o poeta chorou!
Ah...quando o poeta chorou, Encharcou original e rascunho... E a pena – apartada de mãos e sonhos Naufragou num mar de angústias E tantos versos – já maduros Morreram em si, prematuros Num ocaso sem testemunhos...
Abandonados no frio da estante, - em meio ao pó das prateleiras Ficaram Jaymes, Aurelianos, Ferreiras, Veríssimos, Cardosos, Rillos e Coronéis... Entre outras tantas relíquias... Que prá o poeta, eram estrelas guias Para singrar mundo e fronteiras...
Sim... quando o poeta chorou A noite chorou bem mais... Do escuro – de várzeas e juncais Surgiram lamentos de campo! E um lacrimejar compulsivo – em sereno Molhando os cascos do tempo Que galopa sem voltar jamais...
Até a lua, dama tão cheia de si - Mesmo que em quarto minguante Também chorou neste instante Amadrinhada pelas estrelas... E afogou-se – plena e amiúde Rompendo a taipa do açude Que nunca assim, chorou antes...
Alguns dizem que aos poetas Lhe valem muito suas penas... Que são elas, vertentes de temas E de inigualável inspiração! Mas muitas vezes, com certeza A dor se faz tão intensa, Que não se presta a poemas...
Abriu-se um estreito de corredores Para o que, enfim, não vingou... Na vida e nos lábios, um amargor Sem o sabor de um mate bueno... Viu-se “amigos” gargalhando - Em mediocridade renascendo Quando o poeta chorou...
Até o sol quis nascer mais tarde... E ainda assim, permeando nuvens! Luzia igual a um vaga-lume Meio sombra... “quando em vez”, meio luz... Talvez, ele também chorasse, E por isso, tão pouco brilhasse Denunciando seus queixumes...
Quando o poeta chorou, Jurou não mais ser poesia... Pois, para o que ele sentia Já não havia, enfim, salvação... Nem o próprio tempo cura Se uma alma assim – em amargura Prá vida, é querência vazia!
Sequer ousou lamber feridas! Por sabê-las fatais, somente sangrou... O maior veneno é o amor Quando deixa de ser antídoto... O coração bem soube partir, Somente com sede de ir Quando o poeta chorou...
O universo perdeu a graça E quase tudo desbotou... A pampa perdeu a cor E o seu olhar mais sensitivo... E dizem que uma coisa é certa: Nunca mais, onde cruzou o poeta Alguma flor desabrochou!
Quando o poeta chorou, A morte foi mais que velada! A dor pegou rumo na estrada E a pena não ressuscitou... A poesia, com fome, coitada, Sucumbiu na folha calada Quando o poeta chorou...