Alma em Verso
Poesia

Fazenda Moirão

Carlos Leonidas Coelho de Souza

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A estância é a sua casa O cavalo o seu trono A doma o seu destino O laço a sua história E assim é a trajetória Do gaúcho Osvaldo Ferreira

Na velha fazenda moeirão Nasceu um índio guapo Que já trazia nos trapos A alma de um campeiro Como um sorro matreiro Que já nasce sabendo

Este índio cresceu na lida Aprendeu com a experiência E trouxe na convivência Que desde piá vem aprendendo E quando moço convivendo Com a tal de existência

Com completos doze anos Domou seu primeiro potro E mais tarde veio outro E assim se deu num reponte Domando potros ‘um monte’ Saia dum, montava n’outro Os anos passavam rápidos Porque quem esta na lida Que é perigosa e linda Não vê a importância Porque no galpão da estância Não se tem o tempo da vida

No belo raiar do sol Sai em rumo a invernada Numa tradicional campeirada Já se põe pronto o campeiro E com o cusco como companheiro Olhar o rebanho e a terneirada

E depois segue em frente Vai pra outra invernada Para repontar a eguada, Já esquecida pelo tempo, Só conhecendo o vento E o pastor da manada

Olhava a manada com cuidado Porque sabia o que buscava E no meio já apartava Sem dúvida, o melhor pingo Daqueles de laçar e de domingo E também de campeirada

Conhecido nas redondezas Pelos cavalos que domava Pois a doma nem bem terminava E o moeirão estava cheio De índio procurando um meio De comprar o pingo que sonhava

Suas rosetas bebiam sangue Tiradas a raça e maestria Pois da paleta trazia Cortando mais do que aço E sem perder o compasso Se terminava lá na virilha

Ficava manso de lombo Pois deixava da sua maneira Pra passeio e lida campeira De rédeas era uma balança De apartar boi que avança Na porteira da mangueira

De uma inesperada rodada Nunca ficou por debaixo Porque não era capacho De aprendiz de homem campeiro Da rodada sempre saia primeiro E os arreios que ficassem embaixo Quando perdeu a cabeça E o baio beijou o chão Abriu a perna e saiu então Correndo e pisando na orelha Pra mostrar que se assemelha A mais pura tradição Tradição que ainda hoje vive No lombo do gateado Ou como um velho aramado Que quenta firme o tempo E traduz no seu pensamento O horizonte do passado

No laço era professor Não tinha quem lhe ensinasse Por mais que alguém tentasse Sempre colocava o laço no chão Pois laçador como este peão É como se a vida ainda buscasse

E hoje Sentado na beira do fogo Olhando o passado e recordando Que foi um desses campechanos Que recebeu um presente da tradição Foi um destes índios do rincão Que se conhecem por vaqueanos

Mas um campeiro não se entrega Porque o gaúcho de cima da serra Honra a tradição de serrano Levanta e da um pealo na vida Boleia a perna e monta na lida Por ter orgulho de ser vacariano Esta homenagem eu faço A um amigo de verdade Que traz na simplicidade A alma de um campeiro Que até parece guasqueiro Arrumando os tentos da amizade.