Alma em Verso
Poesia

Natividade

Carlos Roberto Hahn

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Ele nasceu de novo, no meio de outro povo, numa imagem sem qualquer retovo, num catre de papelão usado, num berço improvisado, sob um viaduto, ali perto da favela. Viaduto de concreto armado, ali onde o morro começa. Ou termina. E o tráfico domina. Onde a paz é abstrata, mas a luta e o concreto são armados.

José do Nascimento não era carpinteiro, era catador. Catava no lixo aquilo que o luxo dispensava. Latas, garrafas, papelão e até um relógio. Ele achou um relógio velho, estragado. Tinha o vidro trincado. Era automático. Por estar parado, mantinha o tempo estático.

Maria da Anunciação também juntava restos. De José seguia os rastos. Um dia juntaram os rostos. Num beijo terno, saborearam o amor. No arfar dos corpos semearam uma flor.

No seguir dos dias, esvaziavam lixeiras pra encher a mesa. O ventre de Maria se enchia de felicidade. Um herdeiro estava por vir, sem ter o que herdar.

Sob o viaduto, mesmo no escuro, tinham um lugar seguro. Um sofá velho, quebrado e de pano rasgado, servia de catre para Maria. José dormia no chão, num catafalco de papelão.

A noite caía mansamente como a chuva miúda. Veículos passavam sem perceber a cena que os faróis efemeramente iluminavam. No alto dos postes, a luz vista de baixo, criava um halo que parecia uma auréola divina. E, às vezes, até coruscava um arco-íris fugaz.

No esfarrapado sofá, Maria aninhou-se pro descanso. Caminhara léguas com a barriga cheia e o estômago vazio. Num breve cochilo, sonhou com o menino Jesus. Tomou na mão uma cruz que achara numa calçada e guardava como um amuleto. No sonho, percebeu que o sofá estava molhado. Mas a chuva não podia alcançar o sofá? Acordou e viu que chegara a hora. A hora que o relógio quebrado não marcava. Chamou José para ajudar.

José do Nascimento não sabia de nascimentos, mas se dispôs a ajudar como podia. Em minutos o bebê coroava. E veio à luz. Choraram juntos o nascituro, o pai e a mãe, numa trindade de truz.

Num corte de faca, esterilizada na cachaça de José, cortou-se, momentaneamente, o elo inquebrantável que une a mãe ao filho. O recém-nascido, sem qualquer assepsia, sorveu o colostro, aninhado ao seio de Maria.

José quis saber as horas. Olhou para seu pulso e viu que, estranhamente, o relógio voltara a funcionar. Passava um pouco da meia-noite.

Três outros catadores, que por ali passavam, ofereceram ajuda. Não tinham ouro, incenso ou mirra. Traziam "só" solidariedade, como se isso fosse pouco. José ofereceu cachaça para comemorarem.

José e Maria não foram ao cartório fazer o registro. O menino nunca pode estudar. Por isso, se fez catador. Por isso, não encantou os sábios no templo, mas ajudava o padre na igreja. Não fez ressuscitar leprosos, mas sempre rezava pelosmoribundos. Não multiplicou pães e peixes, mas sempre dividiu o pouco quetinha. Não transformou água em vinho, mas dava de beber a quem tinhasede.

O tempo, no relógio de José correu muito rapidamente. O seu filho viveu, por mais de três décadas, na mesma redondeza, onde medra a pobreza e do amanhã não se tem certeza, catando pra fome do dia seguinte.

Um dia a polícia ao morro veio e irrompeu um tiroteio. O filho de José e Maria abrigou-se num barraco suspeito, com mais dois sujeitos e, cada um a seu jeito, evitava as rajadas. Ao final, a polícia matou o catador entre os dois ladrões.

No outro dia os jornais, estampavam manchetes garrafais: "Polícia desbarata antro de marginais." A quem comprou o jornal, notícia não causou desconforto. Pensativo, meio absorto o ledor pensou consigo: "Bandido bom é bandido morto"

Ele nasceu de novo, no meio de outro povo, numa imagem sem qualquer retovo.