Cavaleiros dos Ausentes
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Relampeou o ás de espadas bem na boca do baralho e a canastra se fez limpa como a alma dos gaúchos que cruzam a noite grande carteando suas lembranças, trincando anseios e penas, negaceando alguma dama pra preencher as ausências que a vida foi revelando.
A geada vai branqueando tudo de verde lá fora e o vento frio se esgueirando nas frinchas do galpão velho. No meio da madrugada, quando o candeeiro se apaga, uma cama de pelego recebe o corpo cansado e a velha capa ideal é quincha pro coração.
No outro dia bem cedo tem camargo e chimarrão, o crioulo bem encilhado vai tropeando despacito no rumo do sol nascente, até que o campo se acabe num perau de sentinela, onde nuvens catarinas se estendem pela planura e brotam torres de igreja dos pagos de serra abaixo.
É gente gaúcha que cruza estes campos, é gente decente que vai nas coxilhas... São homens que tem no exemplo do pai seu maior patrimônio, e nas preces da mãe garantia de andar. Meninos que outrora gastaram caronas e andaram nos becos de um vale de sinos, até conquistar um lugar para os seus.
É gente gaúcha que cruza estes campos, é gente decente que vai nas coxilhas... E que se fortalece com a geada, com a neve e com a graxa de ovelha. Amigos que andam extraviados no mundo, mas que nos invernos se vão pros Ausentes dar bóia pras almas.
Um carreteiro salgado adoça o gole da tarde e o borrachão de franqueiro vai ficando mais leviano. A canha vai se entranhando na palavra dos tropeiros, vai dissolvendo os pecados, curando as mágoas antigas, vai preparando o semblante pra hora da viração.
E a noite tem alvoroço, gritedo e empulhação, tem churrasco, tem pinhão e dê-lhe carta no pala. Quando uma dama de ouro resta solita na mesa o pensamento se atiça e os olhares se entrecruzam... Causos de lida pesada ecoam no acampamento.
No domingo ensolarado já é hora de voltar, o corredor é mais triste, silêncios vêm na culatra. O Monte Negro prepara lamentos de cerração e o pingo tranqueia lerdo entre as taipas seculares como a entender nostalgias que pairam no horizonte.
São ligeiras as rodadas e tá desigual a partida, mas a canastra da vida é mais linda de jogar quando se tem parceria, e um amigo pra contar nas horas de precisão, qual um coringa de copas que nos garante a batida quando o baralho se acaba.
O mundo muda depressa e é dura a lida pra todos, mas a tropeada é infinita quando há sentido na estrada, quando se tem na essência a alma branca de geada, quando se tem um emblema que estampa o peito da gente, onde se encontra gravado “Cavaleiros dos Ausentes”!