Charla do Chiru velho
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Sou cria daqui... Veja vancê aquela reboleira De espinho... Onde ainda restam rastros de morada... Pois foi aí, Que ouvi uma santa mulher Me chamar de filho!
Faz anos... Fui crescendo, Crescendo assim - como as guanxumas, Que se afundam na terra... Bem lá no fundo.
Como eram lindos estes campos! Havia gadaria alçada E um saleiro grande Margeando o arroio... O arroio... de aguada limpa! Que belezura d’águas Eram aquelas!!
Ah!...se me lembro! havia fartura...carne à vontade E indiada disposta! quanto correr de égua Fiz aí nessa várzea!
...O fogo - parceiro... - É bueno o fumo! Lá mais adiante... Ta vendo? Parece que ainda há um esteio? ...Era o rancho da Chica... ah! Parceiro, que chinocão!!
Se me lembro da Chica! do andar da Chica... Aquela traseira firme, Aquela anca volteada... Mas morreu, a pobre, ...foi dum raio numa noite braba de janeiro! ...Lhes digo: até depois de morta A Chica mexia co’a gente.
Que chinocão... Deus a tenha!!
Bueno...las puchas... Ando meio entrevado São anos!!
E agora - Patrício... Ta ai esta imundície de progresso... Que coisa nojenta estes motores Rasgando esta terra de primores Que não acredito ver igual!
Até o patrão mudou... É outro - agora! Já não anda mais de lenço Nem de espora. Anda outro - o patrão! foi por causa dessa gente Lá do povo, Nesse horror de invenção!!
E quem sou eu agora? -Um traste velho... um inútil - eu? Eu que fui tão guapo!!
Até dão risada da minha roupa, Deste meu jeitão campeiro; Pois parece mesmo - meu parceiro, Que morreu há muito O tempo bom!!
Que vida! - Que ilusão. Devem ter essa gente Que rasgam a terra verde, Que envenenam estas vertentes, Que derrubam estas arvres Em nome do progresso!?
Mas...é o dinheiro - patrão! Agora eu sei - o dinheiro é tudo. E eu, que só tenho Estas pilchas velhas... E aqueles arreios prateados Lá dependurados no galpão! Mas tem uma coisa... Lhes digo e lhes garanto: Há honra nestes trapos E há honestidade Neste coração!!