Contrabando
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Vai a balsa de farinha cruzando o velho Uruguai.
Vaqueano dessas cruzadas, vem na popa um índio moço manejando o varejão; Vem atento e vem pensando: - Vou deixar do contrabando, não é vida pra um cristão. Hoje vim, porque o menino deu sumiço na chupeta e aquele piá trompeta saiu louco de chorão... Sorri o moço da popa, porque no bolso da roupa traz o bico pro piá.
Houve um tiro, de repente, vindo das bandas de lá! Foi o tiro de sinal. Já no mais o tiroteio se acendeu no macegal, pipocando seco e feio como entrechoque de guampas, no entrevero do rodeio, no dia em que se dá sal. "Mala suerte!" A balsa vinha chegando e a carga do contrabando, com mais dez braças de rio, tinha subido a picada, da picada pra carreta e daí pro caminhão.
Houve um grito de: "-La fresca, o Nico se lastimou!" Mas ninguém botou tenência no sentido deste grito, porque a coisa vinha preta sob o tendal de balaços que a guarda "ajena" estendeu.
Cada bala que cruzava debochava de assovio! Quando a balsa deu no porto no lado de cá do rio, o pessoal ganhou o mato, na picada se sumiu.
A balsa ficou sozinha na madrugada e no rio.
Digo mal: ficou o Nico sobre um saco de farinha, que um balaço espedaçou. Tinha um lenço maragato na brancura da farinha, onde o índio se apoiou.
Foi quando a manhã surgiu, mostrando o sangue do Nico pingando dentro do rio...
"- Menino, cala essa boca, não demora chega o Nico; vai te trazer outro bico, que é pra tu não chorar mais."
Veio a manhã, veio a tarde, veio a boieira luzir. Veio a noite grande e morta e a china veio pra porta e nada do Nico vir!
Veio um dia... outro dia... veio outro dia, depois. Ao pé de uma lamparina vela, em silêncio, uma china que de chorar se cansou.
Numa cama de pelego choraminga, sem sossego, um piazito babão...
... porque o pai não trouxe o bico e o que tinha se extraviou!