Alma em Verso
Poesia

Corredor – Douglas Dias

Douglas Diehl Dias

VIII Tertúlia Maçônica da Poesia CrioulaPublicado em

Há um silêncio pairando nas chircas da tua margem, que empobrecem a paisagem denunciando o abandono... Feito um ranchito sem dono – onde o nada é senhor – teu caminho rastreador vai sumindo lentamente; e dói na alma da gente, teu destino… corredor…

Tudo em ti é saudade... Nada em ti é movimento... Mas quem te viu n’outro tempo compreende tua soledade; pois teu trecho, em verdade, tinha valor na querência! … Hoje restaram ausências pelos rastros apagados, e parece até que o pago esqueceu tua existência...

Não cruza mais, o tropeiro, no teu velho itinerário... Tinha em ti um ementário onde lia o fundamento pra andar mesmo que o vento sem rumo, nem paradeiro! Teus atalhos… atoleiros… tudo sabia de cor… Era o amigo melhor do coração estradeiro!

Caminito das tropeadas que tantas e tantas vezes cruzaram miles de reses seguindo para as charqueadas… Apagaram-se as pegadas... silenciaram os cincerros... e o aboio dos ponteiros não ecoa nestas plagas; já que o gado vai na carga dos caminhões boiadeiros...

Já não abrem as porteiras nas partidas e chegadas, rangendo enferrujadas pelo tempo que as condena. Repartem a mesma cena na tela do teu retrato: sucumbidas pelo mato, cadeadas e sem função; porque os portais do rincão foram pro lado do asfalto.

E até mesmo a primavera parece que não quer mais pintar a cor dos rosais sobre o gris do teu caminho. Ficaram só os espinhos (defensores nas macegas) mas que trazem pontas cegas pois não afiam a pua no couro da pele nua se o cruzador te renega.

Somente a D’alva – madrinha – não te abandona por nada! Volta toda madrugada pra luzir no firmamento… Parece, por um momento, que nessa estrela tão bela, há uma chama singela tal se a alma dum andejo na intenção de um cortejo te acendesse uma vela…

Me dói olhar teu destino... teu exílio… teu desterro... Pois foi o rumo primeiro dos meus passos de guri… Se outrora marquei em ti algo que o tempo apagou, tu – indelével – deixou, com teus segredos e manhas, uma influência tamanha no homem que hoje sou!

Eu choro junto contigo pelo fio dos alambrados, o teu pranto enserenado se tropeço nas lembranças... Foi o palco das andanças desses meus sonhos tão nobres que fizeram um peão pobre trabalhar sobre teu chão e mudar de condição depois de juntar uns cobres.

E à sombra da história teu caminho se perdeu... Mas deixo um último adeus para saudar tua memória, teus rumos, trajetórias, teu caminho rastreador... Eu reparto a mesma dor do rincão te esquecendo; de ver o pago crescendo longe de ti... corredor...

Crédito da fonte: Douglas Dhiel Dias