De Onde Me Veio a Poesia
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Da familiar melodia Que o velho avô nos trazia No dueto das esporas? Ou das coplas que assoviava Meu pai, quando campereava, Alma adentro e campo afora?
DE ONDE ME VEIO A POESIA?
Das rezas que a avó sabia E contrita nos benzia Com brasas num copo d'água? Ou das singelas cantigas Das lavadeiras antigas Enxaguando as suas mágoas?
DE ONDE ME VEIO A POESIA?
Por acaso, não seria Da singular sinfonia, Das rãs no palco do açude? Ou dos causos de galpão Que traziam emoção A nossas almas tão rudes?
DE ONDE ME VEIO A POESIA?
Do aboio dos tropeiros, Fazendo um vocal campeiro Ao berro triste do gado? Ou de alegres alvoradas Com cantos da passarada Em madrigais afinados?
DE ONDE ME VEIO A POESIA?
Do dedilhar invisível, Que o vento torna possível, Nas frágeis franjas dos palas? Ou do luar nos banhados, Pedaços de céu quebrado, Onde só o silêncio fala?
DE ONDE ME VEIO A POESIA?
Da arte que a mãe sabia Nas receitas que fazia Pra adoçar nossas vidas? Ou dos sons das casuarinas Imitando o adeus das chinas, Chorando nas despedidas?
DE ONDE ME VEIO A POESIA?
Do meu rancho lar campeiro, Qual ninho de João Barreiro, Hoje tapera sem dono? Ou dessas folhas caídas, Feito as páginas da vida, Varridas pelos outonos?
DE ONDE ME VEIO A POESIA?
Será que é da nostalgia Quando a carreta gemia Nos rastros dos bois de canga? Ou desses baldes de estrelas Que a noite, pra escondê-las, Despejou n'água da sanga?
DE ONDE ME VEIO A POESIA?
Talvez do sistema antigo, Da gente semear amigos Num mundo mais verdadeiro? Ou do cultivo de amores, Fatais e arrebatadores, Eternos e passageiros?
OS POEMAS FICAM MADUROS, POR ISSO JÁ NÃO PROCURO AS RESPOSTAS QUE EU QUERIA... - OS VERSOS BROTAM DA ARTE! E O POETA? ...APENAS REPARTE O QUE RECEBE, EM POESIA