Alma em Verso
Poesia

DESCULPAS DE UM PEÃO: Djalma Corrêa Pacheco

Djalma Corrêa Pacheco

19º Bivaque da Poesia GaúchaPublicado em

Te peço desculpas, Por quase uma vida inteira De pouco afeto ofertado. Pelo mutismo exacerbado Por pouco verbo pronunciado Por não ter te falado de amor.

Na rudeza da mangueira, Quanto gado eu marquei? Quanta bicheira curei? Estirei quanto alambrado? Mas não parei um só momento Pra te falar de sentimentos... Ficaste sempre de lado.

Quantas vezes, Sem te fazer um carinho Sem te lançar um olhar, Saía cedo pra lida E voltava da recorrida Já bem depois do poente Sem te trazer de presente Sequer uma margarida.

Quando ao rancho chegava Da mesma forma, calado, Tu vinhas, sempre incontida, Com o chimarrão já cevado E puxando qualquer assunto, Somente para estar junto Te sentavas ao meu lado. Eu sempre acabrunhado Mal respondia aos sorrisos Que, generosa, me ofertavas. Muitas vezes, nem escutava Aquilo que me dizias No meu mundo, ensimesmado.

Quantas vezes, minha linda, Quando a lida permitia Algum momento de ócio, Eu me parava a pensar Me comparando com os potros: Por que eu era tão aporreado E mesmo com tanto cuidado Não me deixava domar? Por que mesmo com brandura, Com benquerença e atenção, Eu me mantinha tão aporreado? Por que eu era tão gavião?

Em algumas noites silentes Eu abraçava o violão E coplas saíam do peito. Com a voz desafinada, Te falava, minha amada, Com três ou quatro acordes E palavras que eram de outros - Mesmo sem perceber – Tudo o que queria te dizer, Mas não encontrava maneira.

De quando em vez, morena, Nalguma changa graúda Ficava dias distante... Quando a lua se achegava E a peonada se atirava Pr'alguma farra noturna De china e de cachaçada, No meu catre, eu ficava - Pois, graças a Deus, adorada, Canalha, eu nunca fui – E ali, na solidão, No silêncio do galpão Eu lembrava de teu rosto Rememorava teu sorriso, Recordava teu cheiro, Sentia falta de teu gosto... E por mais distante que fosse Como que levado pelo vento Em segundos eu estava Ao teu lado, em pensamento.

Sim, eu sabia o que era amor! Sim, eu sabia que te amava! Só não sabia expressar.

Agora, de nada adiantam as palavras Aliás... nem mesmo as posso dizer. Faço agora meu caminho derradeiro... Por seis argolas, sustentado Por seis amigos, levado Serei na terra plantado Em sepultura de campo Sem conseguir te dizer Que sempre foste meu apego Sempre foste meu bem-querer.

Aos poucos, me fundirei com a terra E brotarei em flechilhas... E se um dia, maçanilhas, Jasmins, lírios, margaridas, Caliandras, amores-perfeitos E outras cores e perfumes da pampa Nascerem na minha campa Sou eu, te entregando, querida, As flores que quando em vida Eu nunca soube te dar.