Alma em Verso
Poesia

Desde Quando Não Cresci

Vaine Darde

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( I ) Minha mãe me via louco por dizer que a lua era bacia d'água de luz. Por eu me encharcar de lume Sempre adentro noite afora pra dormir luar molhado.

Desde quando não cresci vejo as coisas ao avesso ouço mais do que ninguém o que as árvores não dizem a quem só nasceu normal. - Já fui melhor de enxergar o que os olhos não percebem.

( II ) Me aprendi nos limites da geografia de um pátio pois a rua era um país sem passagem pelo muro. As viagens que me fiz eram de observação navegante num angico.

Tive que inventar brinquedos de abelha e girassol e estudar o pessegueiro da nudez à floração. Econômico de espaço aprendi invencionices de transpor as ambições pra viver o necessário.

( III ) Enquanto os outros brincavam de construir objetos que rodavam na calçada, fui aprendiz de pandorga pra fugir da dimensão de um retângulo de muros. - Desde então me relaciono com o mundo no papel.

Nesses tempos aprendi que as flores são estrofes de paixão às borboletas e os pássaros recitam desconsolados de sol. - Há um dicionário de cantos numa página de pátio.

( IV ) Desde quando não cresci eu sabia dessas coisas de ouvir e enxergar o real do imaginário. Eu sabia dos silêncios carregados de palavras nos cadernos da roseira, do garimpo das abelhas nas manhãs dos girassóis.

Aprendi a conviver com a ausência de pessoas a saber da relação de abelhas e joaninhas de cigarras e canários e as plantas que declamam primavera nas fragrâncias. -Eu sabia o tempo certo de viver cada estação na leitura que fazia do azul sobre os telhados.

( V ) De tanto ocaso no angico vim um pouco passarinho nas minúcias de cantar. Mantenho o palavreado do outono na ramagem quando as folhas se desprendem pra compor o decomposto.

Das noites, poucas lições: umas estrelas perdidas, as enchentes de luar, a insônia na varanda, os cães trincando o silêncio, os gatos de bolinagem e os grilos no exercício da tecelagem das notas.

( VI ) Desde quando não cresci fui demais desregulado de brinquedos e trajetos. Eu, por ser caseiro em mim, nunca fiz itinerário. Sou de tanto interior que não gosto de distâncias e me apego ao desapego do que for desnecessário.

- Desde quando não cresci só decresço desde lá!