Desespero de Peao
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Eu tropeava neste tempo Viajava de escoteiro Carregava muito dinheiro Fazia muitas andanças Deus me deu de herança Viver pelas tropeadas Com a guaiaca empanzinada De muitas libras e onças.
Lembro que certa feita Este peão foi mandado Buscar uma tropa de gado E levar pro matadouro. Meu patrão, índio touro, Mandou dinheiro contado Pra pagar aquele gado Com onças de puro ouro.
Uns cinco dias de viagem Pra chegar no arremate Levei remédios, bom charque, Um tostado de montaria Em sesteadas que fazia De nada eu tinha susto Pois eu levava um cusco Muito bueno de vigia.
Com três dias de viagem Um pouquito cansado Desencilhei o tostado Ouvi cantar um perdigão Botei os pelegos no chão, Então sesteei de primeira Levantei com uma lombeira Fui me banhar no lagoão.
Arroio de águas limpas Que brotavam da restinga Acima tinha uma cacimba Onde água, tomei um bocado, Depois encilhei o tostado O velho cusco sempre atrás Saía atrotezito, no más, Para cegar no lugar marcado.
Andei umas três léguas Num trotezito puxado Pedia rédeas, o tostado, Pingo solto de patas Ajustei a minha faca Mas que susto eu levei Foi assim que notei A falta da minha guaiaca.
Antes o cusco latia Pra trás corria e olhava Ele notou que faltava Toda aquela dinheirada Voltei numa troteada Foi triste meu desespero Na volta encontrei troperos Que vinham na mesma estrada.
Não quis perguntar nada, E a trotezito eu rumei Mas quando lá cheguei, A guaiaca não pude encontrar Deu vontade de chorar Fiquei muito preocupado Era pra pagar o gado Que tinha que levantar.
Fiquei muito aborrecido Pensei... o que faço agora? Então puxei a pistola Naquele momento triste A dor que um peão resiste Pensei logo em me matar Mas três vezes fui pensar Me lembrei que Deus existe.
Então eu guardei a arma E um naco de fumo peguei E um palheiro fechei E comecei a pensar. Como é que vou pagar O dinheiro do patrão Ih! Não esqueci não Da mulher e do piá. Pensei por muito tempo Que vai dizer meu patrão? Vai me chamar de ladrão, Mas pensei um pouquito Não perco meu gabarito Eu arrumo algumas patagãs Vendo os bois e as vacas Também vendo meus cabritos.
Mas rumei atrotezito, Fui avisar o estancieiro Que tinha perdido o dinheiro O qual era do patrão. Quando cheguei no galpão, Madrugada muito fria Ali o amargo corria E um grande fogo no chão.
Logo soltei o tostado Que se rebolcou na grama Deu um relincho com gana E saiu até o potreiro No galpão, entrei ligeiro, Comigo entrou o cusco Me perguntaram: (e o susto!) Foi muito grande Parceiro?
Foi quando me deu alívio, Minha alegria foi farta Senti que minha guaiaca Estava lá com toda certeza Se terminou a tristeza Até o paisano sorriu O cusco olhou e latiu No canto do pé da mesa.
Um peão levantou do banco E minha guaiaca pegou Pra mim ele perguntou: Como está esse coração? Ali fiz uma oração Ao redor do braseiro Vejam só que desespero Passou este pobre peão.