A Lenda e a Prenda
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Das raças que se fundiram Criando a nossa feitura, Eu tenho a fibra e o sangue Que me faz ser uma Prenda Pois tenho resquícios de lenda Na minha própria figura.
A bugra foi a mulher Daquela raça nativa Que acabou sendo cativa Do branco que aqui chegou. E nessas paragens pampeanas Quantos instantes sensuais Não tiveram os ancestrais Do homem que me gerou.
E nessa miscigenação De cruzamentos selvagens, Formou-se nestas paragens A família primitiva. Por isso me sinto as vezes Encarnando a viva estampa da mulher, filha do Pampa, Austera, rija e altiva.
Quando derramo as lágrimas Brotadas duma paixão, E o meu chucro coração Com emoção corcoveia; Quem sabe se não encarno OBIRICI a Virgem Vencida, Que verteu lágrimas sentida Formando o Passo da Areia.
Ou quem sabe se a minha alma, Toda em fogo consumida, Não revive aquela vida Que morreu numa fogueira: E minhas faces coradas E os meus lábios de rubi, Relembram a índia ANAHÍ, Que é a flor da corticeira.
E outras bugras sacrificadas Em holocausto ao amor, Que hoje são rios ou são flor, Dessas lendas do rincão, Me deram a alma e os anseios Pra ser a imagem rediviva Da mulher gaúcha, nativa, E ser Prenda da Tradição!