Alma em Verso
Poesia

Duas Luas

Jayme Caetano Braun

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...a cuia de chimarrão tem sempre o mesmo perfil, no guarda chão do Brasil, onde mateio contrito, bombeando – enquanto medito, a lua cheia de abril.

Vejo como é semelhante a existência do vivente; a “lua nova’- a “crescente”, depois a “cheia” -a minguante, andando sempre- inconstante, na constância que tropeia, só que- a lua não branqueia, na velhice- como a gente, “nova”- “minguante”- “crescente”, lá um dia- aparece “cheia”!

Como quem segue um caminho que conhece de memória, sempre a mesma trajetória, no seu andejar sozinho, buscando- quem sabe- o ninho que o cosmos sem fim encerra; a lua, velha de guerra, feiticeira e rastreadora, é a eterna provocadora dos fenômenos da terra!

Na lida tradicional, até no índio charrua, hay que conhecer a lua, para enfrenar um bagual; pra carnear ou pra dar sal; pra curar uma bicheira; sabe a vivencia campeira, por herança de vevência, que a lua tem influência, até pra cortar madeira.

E penso- bombeando a lua, pena não tenha influência, na frieza de consciência dos grandes- e não influa, na insensatez fria e crua, da meia dúzia- que explora, a humanidade- que chora, que sofre e que se desespera, porque fome não espera e a morte não marca hora.

Quem cresceu- como crescemos, num posto- de sentinela, na pátria verde amarela que pra ser nossa escolhemos, quem conhece o que sabemos, dos secampados e luas, de andanças e lidas cruas, de chuvas- gheadas e ventos, sabe mais dos sofrimentos dos desgarrados das ruas.

Quem dormiu sobre os pelegos, em guri- nas carreteadas, e fez rondas em tropeadas, no escuro- que nem morcegos, nesse mar de desempregos e de incerteza- hoje em dia, pode avaliar a agonia, do patrício sofredor, cujo fantasma é o pavor, da falta de garantia.

Mas que tem a ver com isso, podem perguntar – à lua? Essa mística chirua de tão bárbaro feitiço? È que, o índio fronteiriço, dos ranchos de santa-fé, tem adoração, até, no seu destino de andante, áquele Lunar Minguante na testa de São Sepé!