Alma em Verso
Poesia

Escrava Flor

Jurema Chaves

Publicado em

É mais um drama da vida, Escrito por mãos sofridas, Regado de riso e pranto, Tal e qual flores do campo, Arrancadas pelo vento, que... Antes de florescerem... Morrem secando ao relento.

Assim, nasceu na senzala, Uma linda flor...Mulata Trazia o verde da mata, Nos olhos verdes e ardentes. O encanto do sol nascente, No riso, que florescia. Filha da escrava Maria, E do porão... Do senhor... Senhor de terras...E de gente... Que só era diferente, Por serem de outra cor.

A flor nasceu... E escrava... Nas mãos ingratas, da solte, Aos maus tratos, do feitor, Índio rude, muito maula, Deixava a pobre sem fala, Com a chibata na mão, Porém, em seu coração... Como um espinho ferido... Amor... Pelos olhos lindos, Da mulata conceição.

Como um pássaro sem asas Que, nunca poderá voar, Sem dinheiro, a sonhar, Naquela triste senzala, Aonde, o grito se cala... E a dor do pranto... Adormece, Até o soluço, emudece, Num peito sem liberdade. Na triste desigualdade... De...Ambição e desamor Fazendo morrer a flor No lado da crueldade.

Na solidão de seu peito, Somente ela sabia... As perguntas em agonia... Feitas por seu coração. Porque a mãe natureza, Premiará com tanta beleza. Quem já nasceu na prisão... Da senzala fria e escura, Onde tantas criaturas... Padecem na escravidão.

E... Quando ela passava, com seu andar de potranca suave gingando as ancas, entre escravos e senhores... era suspiros da amores... entre olhares de cobiça, pra que a indiada mestiça... que tinha a graça das flores.

Mas... Um dia Conceição, Se apaixonou por Tonico, Um negro forte bonito... De olhar firme e decidido. No peito o amor contido, Queimando por fogo ardente. Em beijar os lábios quentes Num amor correspondido

Assim dois corpos se uniram, Quando a pampa adormeceu. Um manto escuro desceu E o silêncio foi cortado. Por gemidos, sussurrados. Um grande amor que explodia, Porém aquela alegria... Tinha momentos, contados.

Envolvidos na ternura, Estas duas criaturas, No manto escuro da noite Unidos no mesmo açoite. De paixão, ciúme e dor. Que a lua com seu fulgor. Iluminava silente... Guardaria... Certamente, Este segredo de amor. Pois o malvado feitor, Perseguindo, Conceição, Segado pela paixão Por ciúmes, consumido, Ao ver os dois tão unidos No amor, a tanto esperado. Dois seres enamorados... Buscando o tempo perdido.

Mas, a lei da escravidão. Sem perdão e sem carinho Amarrado ao pelorinho... Tonico foi açoitado, Cruelmente castigado... Pela chibata inclemente, Era, mais um inocente, Pagando sem ter errado, Sentia a pele rasgando... A carne dilacerando... As forças lhe abandonando, E, foi morrendo ajoelhado.

Um grito de desespero, A voz morreu na garganta, Sufocada, pela dor. Cansado de sofrer tanto. Erguendo seus olhos francos, Fitando firme o feitor, Naquela lenta agonia... Enquanto a alma partia, Ao encontro do senhor.

E foi descansar nos braços, De algum anjo, certamente, Livres de tronco e açoites, Foi brilhar no céu da noite, Na alma da madrugada... E esperar sua amada. Sobre um raio de luar. Só, o amor puro das almas, Ninguém pode separar.

Conceição não suportando O sofrer de seu amado Vendo morrer açoitado, O corpo que foi tão seu, Num repente enlouqueceu... Levada por dor, atroz. Livrando-se de seu algoz, Tomou veneno, e morreu. Assim partiram juntinhos, As almas que não tem cor. Foram viver seu amor. Distante da crueldade, Com paz e serenidade. A alma não vaga, ao léu, E aquele amor tão bonito De Conceição e Tonico, Vive agora num ranchito, Na azul planície do céu.

O dia amanheceu triste, O sol não apareceu... Uma névoa densa encobria, Como pranto que caia... Da natureza, do céu. A cascata emudeceu. Entre triste e comovida. Silenciosa despedida. Pra flor...Que não floresceu.

Até o jacarandá, Que...Por não saber chorar, Ficou triste a balançar. E despetalou suas flores, Juntando perfumes e cores. Formou um manto lilás. Para, cobrir Conceição. Que, ao seu pé, sobre o chão.. Morrendo...Encontrou a paz.

Restam duas cruzes plantadas Numa colina distante, Contrastando com o horizonte, Numa beleza sem par. Onde a paisagem se veste, Com lindas flores silvestres, Numa profusão de cores, É um idílio de amores.

A impressão que se tem, Que lá de cima do além Cultivam este jardim E ao ver os pés de alecrim Com seus ramos entrelaçados Parecem as duas almas Num abraço ETERNIZADAS.