Estação 93
Publicado em
Uma legião de centauros mete a cara na fronteira zombando a sorte dos ventos, pelo perfil da coluna paleteando negros ponchos varando a pampa gelada, parecia que a mão de Deus confortava a alma dos seus velando Pátria na geada.
Vinham da banda oriental, onde por tempo estiveram, curando rombos de ferros, curando rombos de ferros, cuidando as almas feridas, golpeadas pelas mentiras de heróis que faziam guerra, sem nunca sentir na carne o frio da lança que arde quando uma carga atropela.
As paisagens destorcidas pelo luar quase um dia ludibriavam os olhos dos que traziam na mente a ilusão de uma sonho antigo, poder rever uma parceiro usando um distinto lenço, sem ter que pagar o preço de só poder abraçá-lo quando já morto estivesse.
Quando os lançaços do sol sangram a paz das sangas e reluziram clarins, os rios de águas tão claras pratearam lágrimas rubras, tingidas por outros párias que tombaram nas batalhas pra honrar eternas medalhas na goma dos coronéis. - A quietude espanta as preces quando o ar mórbido cresce de um campo-santo ao relento, dói a alma, do mais taura, ver homens e animais sobrepostos pelo chão, insepultos, indigentes uns pra dar bóia às tropas, outros pros ideais…
Desconcertando o silêncio um quero-quero sentido se alçava rumo as taperas, talvez pra avisar fantasmas, pois era fúnebre o canto que o sentinela do campo entoava pelas canhadas… depois tornava o mutismo charlando mais que as palavras.
- Pro coração do Rio Grande marcha a coluna enlutada levando um clamor nos olhos, brado das almas cansadas, dos espíritos que rondam um povo já sem razão que mais parecem hebreus oferecendo a seu Deus o holocausto do irmão.
Do que era feito o brio desses centauros pampeanos que refugavam bocal?… Que tinham sonhos e anseios aprisionados no olhos como um amor resguardado no fundo do coração, como o cruzeiro teimoso que mesmo longe do pago insiste em apontar pro sul.
- O tempo lento passou, pros que fizeram morada entre lombilho e o sombreiro, pros que se armaram de ódio para o furor do entreveiro, da fome, das noites frias, pras viúvas que ampararam a dor dos filhos bastardos do estupro e da covardia.
- Quando os clarins repousaram, guris, mulheres e arados juntaram-se aos mutilados para uma nova batalha, peleando, não com adagas, mas ideais libertários pra um dia termos motivos para cantar novos hinos e honrar eternas medalhas.
- Não mais o negror dos ponchos enlutando a paisanada, não mais centauros com lanças cruzando a pampa gelada…
Mas, por certo ainda vigiam n'outras formas nosso sul, pois quando a pampa adormece pra insônia de mil fantasmas, uma legião de centauros mete a cara nas estrelas i ignorando fronteiras fazem a ronda do céu.