Senhor das Pitangueiras
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O agosto já andava largo e as noites se encostavam em horizontes tão vagos...
Os bichos se amoitavam a passara dormia... A casa acendia os olhos num crepitar nas janelas enquanto a lareira gemia.
O vento, em silvos cortantes, castigava o arvoredo...
Um galho verde batia nas frestas duma janela como se também quisesse se esconder da ventania. Meus pensamentos dançavam ao fogo, que me aquecia e um gato inquieto costeava as sombras que eu não via.
Num repente me inundou a face a emoção de um tempo distante... As sombras já se mostravam em forma de bem querer.
Já não estava mais só, já não erro só o fogo a me fazer companhia e, sem querer entender o momento, simplesmente sorri...
Seus olhos iluminavam muito mais que as labaredas... O seu semblante de sonho chegou no mesmo silêncio que se aninhou no meu peito desde o dia em que partiu.
Então lhe servi um mate e as palavras jorraram de minha boca silente, feito água de nascente que enfim encontra o seu rio:
“- Que falta faz esta seiva que me aquece o coração quando mateio contigo... Que falta faz o teu rosto, o afago da tua mão... a tua presença de amigo.”
“ – O rancho cala comigo quando as lembranças me invadem... Por isso choro baixinho, por isso sinto saudades. Saudades talvez latentes quando a vida segue em frente, frente à peleia maleva que consome o coração!”
“ Ah! Que saudade bonita das tardes no alto das pitangueiras, o pior problema era a mãe chamando na hora do banho, que a mesa já estava posta e a janta já quase pronta!”
“Ah! Que doces eram meus reinos... Senhor da Pitangueiras!”
“Eu me lembro dos festejos dos dias de marcação o bicharedo assustado ponteado pra mangueira! E nós, mais apavorados, nos galhos de um angico no costado da porteira.” “Tomara que o bicho não fuja, ou que fuja e se faça o entreveiro!!”
“Ah! Que saudade bonita desses medos infantis! Como é belo ser criança, como é simples ser feliz!”
“Em todos esses momentos me amadrinhaste, seguro... Estavas sempre presente, personagem principal de uma história encantada que nunca teria final.”
“Mas foste, pois todos vão, e o tempo também seguiu...”
“Hoje o velho angico e as pitangueiras da infância já não me sustentam mais...”
“Sinto que todos meus medos não ficaram enterrados naquele tempo perdido! Mas sinto que tuas verdades são os cerne mais sagrado que sustenta minha coragem pelas peleias da vida!”
Então tornei a calar, quando uma gota de alma luziu à porta do olhar.
Ele me passou o mate e simplesmente sorriu o seu sorriso de sol naquela noite de frio.
E assim foi a madrugada até que, sem dizer nada, ainda sorrindo, partiu.
Na lareira um tição solito, ao lado um mate lavado e uma cambona vazia...
O gato por companheiro, e a alma, que era luzeiro naquela noite tão fria!!
E hoje, quando agosto anuncia que a noite traz o frio do horizonte, faço crepitar a lareira pra aquecer a casa velha e contar histórias compassadas dessas que ele me contava...
Talvez nem tenha tempo pra ouvir o inverno pois dois olhos pequeninos e dois ouvidos atentos me esperam, junto a um sorriso, debaixo do cobertor... Aos pés o gato se aninha feito um guardião companheiro costeando as sombras que eu não via!