Fogão de Tropeiro
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Candieiro chucro incendiado Sobre os altares do campo Teu vulto de pirilampo Que na velha noite pisca Evoca em cada faísca Entre os cavacos de aroeira A mirada caborteira De alguma chinoca arisca!
Tens o brilho do luzeiro Quando um gaúcho te acende E do teu ser se desprende Por entre os rolos de fumo O velho espectro sem rumo Deste pago soberano Que o destino desumano Reponta pelo deserto Para ser guardião, por certo, De algum segredo pampeano!
Meu velho fogão gaúcho Das tropereadas de moço Agora que já não ouço Do teu brasedo o estalo Nem escuto meu cavalo Nervoso mascando o freio Eu sinto o duro receio De ver meu pago nas trevas Se alguma sina maleva Te aparta do nosso meio!
Já não durmo nos arreios Depois de fazer meu quarto, Não tropeio e nem aparto Nas invernadas de boi, Aquele tempo se foi, Deixando um pegão rasteiro E o meu fogão de tropeiro Que adoro desde criança, Hoje é a mais cara lembrança Do meu passado campeiro!
Já quase ninguém te avista Meu legendário fogão, Hoje o tropeiro é o vagão Sobre uma estrada de ferro, E mui raro se ouve o berro Da tropa no bebedor, Não há culatra e fiador, Nem ponteiro que responda, Chô-égua, já nem se ronda No canto do corredor!
Pouco mais és fogão velho No altar da natureza Do que a vela grande acesa Clareando as glórias da raça, E o teu rasto de fumaça Espalhado pelo vento É o gaúcho sentimento Que entreverado se expande Noutros fogões do Rio Grande Que brilham no firmamento!
Já não tens o ar festivo, Das longas noites de inverno, Quando a indiada puro cerno, Te rodeava folgazona E quando, sobre a carona, Enquanto a tropa dormia, O xiru velho mexia Nas hileras da cordeona!
Por isso as vezes eu penso Que o guasca que te rodeia, Espera o quarto e mateia Decerto não compreendeu, Que o tempo velho encolheu Como lonca no relento, E que o chucro acampamento, Noite a dentro tremulando É uma faísca esvoaçando No fogão do pensamento!
Então fico entristecido, Quando pego a me lembrar Que cessará de alumiar Estas paragens escuras Quando o sol deixa as alturas Desta querência sem par, E até chego a desejar Que tenha fim este mundo Para viver num segundo Onde te possa rodear E contigo memoriar Campeando rincões perdidos Saudades dos tempos idos Que jamais hão de voltar!...
E te juro fogão chucro, Que o teu divino clarão Será a última visão Que hei de levar na retina Quando a mão de alguma china Um dia fechar meus olhos E as lágrimas que desfolho Na cinzas do teu borralho São as lágrimas de orvalho Da própria noite que chora Pensando que vais embora Deixando na escuridão As pousadas do Rincão Por estes campos a fora!
E assim como tu, que morres Eu também vou me apagando Pelas estradas tropeando Meus recuerdos do passado, Levo tudo enquadrilhado No rumo da eternidade Repontando uma saudade No velho pingo estropeado Que há de seguir a seu lado Enquanto houver claridade!!!!!