Alma em Verso
Poesia

Galpão da Santo Hipólito

Rafael Ferreira

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Galpão é casa de encilha, É rancho do mate amargo, É lugar do trago largo Na madrugada tordilha, É um abraço de família, Esteio e fraternidade, Memorial de uma saudade, Guarda nas frestas vazias, Picumãs de nostalgia Dos fogões da mocidade.

Galpão, cerno de madeira, Com lembranças penduradas, Onde causo e patacoadas Ecoam na cumeeira. Garras de gente campeira, No cavalete que encilho, E os sonhos que entropilho Revejo numa alvorada, Ouvindo a canção sagrada Da baia quebrando milho.

Galpão do grito de - bamo - (Alço a perna e tô a cavalo), Se finda o canto do galo Vou pro mundo e não reclamo, Emponchado já me inflamo, Depois de cruzar a porta, Mesmo na aragem, que entorta, Faço a lida e ando altivo, Rumo ao galpão lenitivo, Qu’espera sempre a minha volta.

Galpão da sonoridade, Do vento levando a poeira, Do estalo da aroeira, Brasa de tempo e verdade. Cantiga de fim de tarde, Numa vassoura de arrasto, Cisco e restito de pasto, Poeira e clina se emparelha, Com o barro da Extrema Velha, Que se soltou de algum casco.

Galpão espiado de lua, Noite quem vem e se agranda, Têm romances na garganta Onde a milonga flutua, O galo que afia a pua Na guitarra e no protesto, É o gaúcho manifesto De cantar com coração E mostrar que o próprio chão Não perde em nada pro resto.

Galpão do silêncio largo, Com fantasmas ancestrais, Sensitivos memoriais Rondando a hora do amargo, Galpão que escreve o embargo Aos avanços e decretos, Pois no xucro dialeto Das histórias galponeiras, Vive a herança verdadeira Que os avós deixam pros netos.

Galpão dos Reginini, Dos Godinho e dos amigos, Eu tanto aprendi contigo Escola rural, define, Te peço, não desanime Na mantença de um legado, É o passado enraizado, É o futuro da tua gente, E pra mim sempre é presente Na luz de um verso rimado.