Garrucha
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Garrucha de olheiras fundas que traz a morte nos olhos. Recordo, quando desfolho as tuas glórias passadas, relinchos de almas penadas que andam rondando taperas, assombrações de outras eras quando tua voz era lei. Quando o gaúcho era rei e tu, soberba rainha, representavas, sozinha, uma epopéia de glória.
Ora trançavas a história de algum taura romanesco, ou o episódio dantesco de uma batalha pampeana. A tua voragem insana, na pampa verde e bravia a fogo e chumbo escrevia odisséias imortais... e vereditos brutais a trombetear pronunciavas quando - juiz - sentenciavas nas tragédias passionais.
Na ilharga de algum torena, pacholeando em monarqueada, foste prenda acariciada como um corpo de mulher. E se uma razão qualquer te despertava a voragem, se ouvia, louco e selvagem, teu gargalhar seco e forte.
Garrucha, chasque de morte nas vigilâncias soturnas. Garrucha, mulher noturna de amor sádico e fatal. Teus lábios frios de metal, incandescidos num beijo, transmitiam num lampejo, o teu carinho letal.
Nas festas grandes de Marte, no salão verde do pago, teu canto, rouco e pressago, marcava o baile guerreiro. O gaúcho caborteiro te amou, garrucha nervosa, marafona belicosa das bacanais do enterevo.
Garrucha de olheiras fundas, pobre rainha sem trono. Postergada ao abandono da amarga decrepitude És o teu próprio ataúde retovado de tristeza. Da passada realeza nada, nada resta agora.
Mas aqui tens a penhora, numa triste melopéia, desta minh'alma plebéia que abichornada soluça e em ritual se debruça à sombra de tua memória, na cadência merencórea de uma última oração.
Porque somente o brazão de uma glória fenecida, anima os restos de vida na tua agonia presente. Mas neste verso plangente continuarás soberana, pois és, garrucha aragana, à beira da sepultura, um símbolo da bravura da eterna raça pampeana!