Alma em Verso
Poesia

Velha Cordeona

Gonçalves Chaves Calixto

Publicado em

Minha velha gaita ponto, Quando te escuto tocando, Eu fico te comparando Com a história da nossa terra, Teu toque é um grito de guerra Que a toda a pampa desperta; É o grito do quero-quero Ecoando na noite calma, Gemido d’alguma alma Numa querência deserta.

Eu e tu, velha cordeona, Temos o mesmo ideal, O mesmo estilo bagual Que não quebra nem destronca, Dois tentos da mesma lonca, Torcidos do mesmo jeito E se te escuto de longe, Sinto tamanha emoção Que meu velho coração Corcoveia satisfeito.

Quando te abres marcando O compasso da vaneira Eu vejo em tuas hilheiras A nobre cavalaria Marcando em fila se ia Para morrer ou matar, Do outro lado, teus baixos, São generais no comando, Heroicamente gritando Mandando a tropa marchar.

E quando um taura te espicha, Num milonga chorona Parece, velha cordeona, Que minh’alma se revolta E campo a fora se solta Num galopito mais forte, Mas quando a “marca” termina O teu lamentoé o gemido, Indo ao encontro da morte.

As vezes churumingando, Junto ao foguitode chão, Eutenho a pura impressão Quando o guasca te dedilha Que és um clarim na coxilha Tocando na noite escura. Contigo, velha cordeona, Venho marchando na frente, Dizendo p’ra nossa gente Que tradição é cultura.

Duas alças, couro cru, Nos baixos e no teclado Trás o guasca acolherado Como o gaúcho à chinoca, E o gaiteiro que te toca Fica garboso de um jeito Que a quem conhece, parece, Que aquele teura arrumado, Tem o pampa palanqueado Junto ao palanque do peito.

Teu fole velho furado D’alguma ponta de faca, Parece a velha bruaca Jogada sobre um cargueiro Ou pessuelo de um tropeiro, Troperiando a trajetória Porém quando ela se fecha, No vai e vem do teclado, Parece um livro guardado Cheio de coisas da história.

Duas hilheiras de teclas Que acompanham oito “Baixos” Que roncam qual índios machos, Quando algo descombina, Tecla, lamento de china, Rezando a Deus com paciência, Pedindo que ampare as almas Dos tauras que não voltaram E que peleando tombaram No chão de outra querência.

Teu toque é um chamado xucro P’ra que o guasca venha á luta O xiru, quando te escuta, Floriando marcas do pago Sente por ti tanto afago Que eu penso a todo momento Que o gaúcho que tem alma, Sem heresia ou contenda, Vê em você a 1ª Prenda Da velha pátria de Bento.

Se és estrangeira... Que importa? Pois nada é mais importante Que a sinfonia vibrante Quando o gaiteiro te capricha. E com o laço, te espicha, Xinchando a armada do pialo; Tu és muito mais gaúcha Que o som de cotes e valsas, Pendurada pelas alças Na anca de algum cavalo.