Alma em Verso
Poesia

Do Posteiro Tupy e seu cachorro Tenente

Guido de Jesus Morais

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Quando os olhos pestanudos me olharam umedecidos; tudo o que tinha perdido... Negrinho do Pastoreio com ganas agradeci... hoje, depois do entreveiro, acendo um touco por ti.

Mas o isqueiro negou fogo, me deixando contrariado... E eu perguntei pra boieira se era certo o meu achado... Mas me ardia na moleira a penca que eu tinhga atado.

Porque fui mandar os doces por aquele gurizote? Ele beijou o embrulhinho, depois guardou no degote com um olhar rebenqueador... Eu tenho que gastar plata é num pingo bom de pata e não em artes de amor.

Quando voltei para o rancho, curtido de amor e pó, lembrei que o dever primeiro de um pobre e velho posteiro é ser campeiro e ser só.

Já tive muitas chinocas aquentando meus pelegos: muitas levaram lembranças, deixando desassossegos. Entropilhei cinqüenta anos e mais de mil estrepolias: Tive uns quatro desenganos, muito poucas alegrias... As vezes, eu abro os panos e vou orelhar enganso nos balcões das pulperias.

Aí sim, me sinto bem com o Zé, o Juca e o Dandão... Eu truco, tava e milongas, o diário ordinário passa: e branco de uma cachaça olvida o verde rincão...

Cavalo e Perro me avisam que o domingo se termina... Cedito, amanhã, o rodeio e a obrigatória rotina. o pingo mascando o freio e eu mascando a minha sina.

Este cachorro me tira... Acusador? Conivente? É que se acha parecido com seu dono, certamente: cada vez que se acasala, a parceira é diferente.

Tem as crias por aí, que não lhe chamam de pai: uns culatreando carretas e outros gauderiando vai... Até nisso me pareço com este ovelheiro rengo, pois um que é andarengo e outros lá no Uruguay...

Eu tomo canha, ele, água. Eu como a carne, ele, o osso. O tatu quem pega é ele: eu só destronco o pescoço e asso e raspo até o casco. Ele é fiel e, por isso, sempre está pronto ao serviço e eu disso tenho asco.

Ele é um amigo dos raros, quarteador, inteligente... Volteia as mancas sozinho, se eu corpeio ou ando ausente. Todos me chamam Tupy. O nome dele é Tenente. Nós nascemos invertidos: EU SOU CACHORRO, ELE É GENTE.